UNIBUS ENTREVISTA: Augusto Maranhão fala, com exclusividade, sobre a licitação metropolitana

Empresário falou sobre o ousado projeto da licitação metropolitana, sistema de trânsito e transporte da região metropolitana e sua saída da direção de comunicação do SETURN

Proprietário de duas das melhores empresas de ônibus do Nordeste, Augusto Maranhão defende atualmente um grande ajuste no sistema de transporte da região metropolitana de Natal. A licitação metropolitana, ideia do empresário Marcelo Passos, integrará todos os municípios ao redor de Natal e será estruturado com grandes corredores, terminais de integração e linhas segmentadas. Em entrevista exclusiva ao UNIBUS RN, ele, que recentemente entregou o cargo de diretor de comunicação do SETURN – Sindicato das Empresas Transporte Urbano de Natal –, falou ao nosso portal sobre o possível novo sistema e as boas ações que os órgãos gestores já vêm executando.

De acordo com Augusto, o sistema teria operações semelhantes ao que é praticado em grandes cidades do Brasil e outras cidades da América Latina, como Bogotá, na Colômbia, e Santiago, no Chile. O grande atrativo será a unificação das tarifas, a melhora nos serviços oferecidos pelas empresas e a mobilidade entre toda região metropolitana de Natal. A ousadia do tema vai de acordo com a polêmica; Empresários ainda não deram seu parecer e órgãos gestores ainda devem se estruturar para o novo sistema. Na entrevista, que você irá ler abaixo, todas as questões são discutidas por Augusto.


UNIBUS RN: O senhor falou em entrevista a imprensa sobre um projeto, acima de tudo ousado, que busca integrar toda a região metropolitana de Natal. De maneira geral, como seria este novo sistema?
Augusto Maranhão: Marcelo Passos, no meu entender, é o empresário mais inteligente do setor de transportes do Rio Grande do Norte. Ele tem conseguido vitórias inexpressivas para a empresa dele, na frente de todo mundo. Isso quer dizer que ele tem feito uma estratégia, uma gestão empresarial a frente da realidade das outras empresas. Ele defende o seguinte: Com o advento dele com a empresa Trampolim da Vitória, da região metropolitana, ele defende que toda a região metropolitana tenha tarifação única com a bilhetagem natalense. Isso quer dizer que haveria apenas um processo licitatório, seria o processo licitatório metropolitano. Você poderia até perguntar; ‘Mas Augusto, e as linhas, por exemplo, de Ponta Negra?’ Essa linha de Ponta Negra seria suprida pela linha de Pirangy Praia e faríamos um grande terminal em Pirangy, para fazermos uma integração de empresas. Ou seja, o usuário metropolitano pagaria uma passagem mais barata e teria também ao seu dispor as empresas municipais (de Natal) no município vizinho. Todo o processo das linhas urbanas que margeiam as metropolitanas iria passar para trás, iriam para as regiões metropolitanas para que, ai sim, a tarifação urbana e bilhetagem de Natal beneficiassem os usuários. É um projeto muito ousado, mas como ele parte de Marcelo, a gente imagina que dê certo e eu, no primeiro momento que ouvi a ideia dele aqui no debate no nosso sindicato, apoiei, na hora, o projeto. É um projeto que, no meu ver, a gente avançaria muito o sistema de transportes. Agora isso requer uma grande equipe técnica para ver esses entraves burocráticos, de frota, de preço de tarifação… Mas eu acho que é um avanço!

UNIBUS: Então no novo sistema a SEMOB – Secretaria de Mobilidade Urbana de Natal – abriria mão das linhas municipais?
AM: Abriria mão da gestão. O DER (Departamento de Estradas e Rodagens) também deixaria de ser uma diretoria de transporte e passaria a ser uma super secretaria que iria gerir todo o transporte metropolitano, inclusive dentro do município de Natal. Isso seria um grande convênio entre estado e municípios.

“Não tem outra solução se não uma grande integração metropolitana com o município de Natal.”


UNIBUS: O senhor falou em mudanças, na super secretaria que passaria a ser o DER. Mas sabemos que o DER atualmente é um órgão extremamente deficiente. O DER, em sua opinião, vai conseguir se estruturar para esse novo sistema?
AM: Ele já está se reestruturando em razão da mobilidade da copa, pois ela não é uma mobilidade natalense, é metropolitana. A gente todo dia vê na mídia os fazeres do DER através do seu diretor-geral, Demétrio Torres. Eu acho que havendo vontade política, e acho que a governadora tá com a vontade grande – não estava era tendo condições – mas agora não tem mais desculpa nem discurso que ‘não autoriza’, ‘trás uma dívida astronômica pra mim’, etc. Acho que tem tudo para dar certo. 2014 está ai! A copa, a mobilidade e a vontade!

UNIBUS: Já podemos ter alguma ideia de custos, preços de tarifas, em quanto poderíamos chegar com esse novo sistema?
AM: Eu creio que seria a tarifação de Natal mais o processo inflacionário do ano. Eu não vejo nem uma coisa astronômica, uma coisa significativamente diferente. Isso ai não seria o atrativo para o usuário. Hoje o que atrai o usuário é preço e evidentemente serviço.

UNIBUS: Apuramos que não foram todas as empresas que deram seus pareceres sobre o novo sistema. Seria possível, ainda que com essas dúvidas dos próprios empresários, que este projeto saia do papel?
AM: Eu creio que sim, porque toda modificação tem os prós e os contras. Um caso desses que envolve uma modificação radical no sistema municipal natalense, é necessário que exista as precauções, as cautelas… Mas eu creio que, pelo andar da carruagem, não tem outra solução se não uma grande integração metropolitana com o município de Natal.

“A gente vai passar por uma revolução no setor de transporte. Aliás, já está acontecendo!”


UNIBUS: O projeto seria implantado por etapas, começando, por exemplo, pelas linhas mais próximas, as já chamadas semi-urbanas?
AM: Por exemplo, essa linha nova, que surgiu agora a 15 dias (Linha R), ela poderia ser um projeto piloto. As linhas urbanas da região de São Gonçalo também já iriam compartilhar desse novo sistema e fariam uma linha metropolitana municipal. Tudo tem que ter o começo. Quando a princesa Isabel proclamou a república, a abolição dos escravos, houve a ideia de que ninguém aceitaria… Os senhores de engenho, os grandes cafeicultores… Mas é como essa ideia aqui! Uma ideia que a olho nu parece algo estrovenga, desmantelado, mas no dia a dia, na realidade do usuário, ela vai valer a pena. O transporte vai mudar muito até a copa de 2014.

UNIBUS: Hoje nós temos briguinhas banais. Linhas metropolitanas não podem, se quer, entrar em certos corredores de Natal. Isso deverá acabar com o novo sistema?
AM: Essas querelas, essas brigas de uma rua aqui, acolá, vão todas acabar.

UNIBUS: Com o novo sistema, podemos pensar na criação de terminais de integrações que, de certa maneira, ajudaria no fluxo das linhas e das empresas?
AM: Também! É necessário para as outras linhas que não seriam atendidas pelo plano metropolitano.

UNIBUS: E nesses terminais poderiam ser criadas, como por exemplo, no sistema de Recife, linhas segmentadas?
AM: No transporte, hoje, nada se cria, tudo se copia. Tá dando certo em Recife, tá dando certo em Santiago (Chile), em Bogotá (Colômbia). Toda América latina está apostando no transporte sobre rodas, sobre pneus, para fazer as suas mobilidades.

“Hoje nós vivemos ao bel prazer de uma ‘canetada’”


UNIBUS: Então podemos pensar, por exemplo, em uma linha como Pirangy/Redinha, via Ponte Newton Navarro. Uma linha que passaria por grandes corredores (Rota do Sol, Via Costeira, Ponte Newton Navarro) de relativa demanda e sem passar pelo centro da cidade. Essas linhas segmentadas teriam prioridade na licitação metropolitana?
AM: Eu creio que sim. A gente vai passar por uma revolução no setor de transporte. Aliás, já está acontecendo, devido às empresas novas que vieram com essa nova mentalidade. Por isso que eu mesmo entreguei meu cargo (de diretor de comunicação do SETURN). Não achava ético está defendendo uma coisa com uma nova realidade e novos sócios no SETURN. Eles são pessoas que tem outras idéias. Então coloquei meu cargo a disposição e falei: ‘Vamos contratar um jornalista profissional para ser o porta-voz do segmento’ e acho até que vai melhorar essa relação com a imprensa, pois às vezes eu dou minha opinião, mas com emoção. Eu estou vivenciando o problema.

UNIBUS: Por que o senhor acha que se demorou tanto para pensarmos na integração metropolitana?
AM: Porque tudo na vida tem seu tempo, seu momento. Eu creio que o empresário Marcelo Passos foi feliz nessa nova sociedade e as coisas acontecem no seu devido tempo. Nada tá perdido, pelo contrário, está tudo se encaminhando para a melhoria do transporte coletivo. E essa melhoria tem que ser sentida pelo usuário e também pela mobilidade. Essas intervenções que a SEMOB tem feito no sistema viário, simples e baratas, mas que dão um senhor resultado. Por exemplo: retirou aquela contramão da Rua São José que dava acesso a Avenida Bernardo Vieira; Ótimo! Fez aquele novo itinerário na Rua Dionísio Figueira; O ônibus ao invés de passar pela antiga Casa de Saúde Petrópolis, agora passa direto. ‘Quebrou’ a Avenida Prudente de Morais na Rua Raimundo Chaves. Fez giratória no Palácio dos Esportes… São intervenções simples, mas que dão resultados. Nós natalenses que dirigimos nossos automóveis precisamos nos educar a realidade. Não podemos fazer fila dupla como fazem ali na Avenida Rodrigues Alves em frente a Caixa Econômica… Ali é fila dupla, pois os motoristas vão ao banco. O interesse particular a cima do interesse coletivo… Botar lixo nos canteiros centrais, ai o caminhão da urbana tem que parar na faixa esquerda para retirar o lixo. Canteiro central em Natal é depósito de lixo. Tá errado! Essa cultura da gente de acomodação é que nós precisamos mudar.

UNIBUS: A imprensa e, de certa maneira a opinião pública, encarou esta ideia do novo sistema como algo para burlar a licitação municipal. Pode ser encarada como uma tentativa?
AM: De jeito nenhum! Pelo contrário… Paramos de conversar sobre isso porque já saiu na imprensa alguma insinuação nesse sentido. Os mais interessados nessa licitação são os empresários para regularizar a situação que está imperfeita. Hoje nós vivemos ao bel prazer de uma ‘canetada’. Quando tivermos a licitação, vamos ter uma relação jurídica muito forte, pois é a outorga. Deixaremos de ser permissionários para sermos concessionários. Lá, teremos atribuições, direitos e deveres lado a lado. Nós buscamos isso. É o problema de todo Brasil, e não adianta a vontade de um empresário, pois não tem como voltar atrás na licitação. 

“Temos que dar prioridade ao transporte público”


UNIBUS: Estamos em ano eleitoral. Há um prazo para que as concorrências públicas aconteçam até o final de abril. Para esse ano, a proposta da licitação ficará só no debate?
AM: Eu não sei a legislação eleitoral como funciona. Tem esses detalhes… Mas acho que o processo licitatório é hoje ou amanhã, mas é inevitável. Ele acontecerá nesses dias, ou esse ano… Quando, eu não sei. Não é de minha seara.

UNIBUS: E a licitação urbana saindo poderá atrapalhar o projeto da licitação metropolitana?
AM: Pelo contrário, ele poderá aprimorar. A gente regulariza uma situação e aprimora outra. Regulariza o municipal e se faz a licitação metropolitana para ampliar essa conjuntura. O mais importante nessa relação é o cliente. Não adianta não perguntar ao usuário se isso atende a ele. Essa equação pela capacidade de atendimento das novas demandas do usuário.

UNIBUS: No evento da entrega dos novos ônibus da Guanabara, o empresário Fernando Queiroz, da empresa Guanabara, disse que, ‘para o pleno funcionamento do sistema, a parcela da Prefeitura é fundamental. Afinal, não há como botar carros novos nas ruas se a malha viária não corresponde’. Em sua opinião, é importante que, além da iniciativa da licitação, o poder público também deva contribuir em outros aspectos para o pleno funcionamento do sistema?
AM: O que eu defendo é que a propaganda governamental não seja aquele prefeito ou governador com capacete apontado para trator ou para obras. Toda propaganda governamental deve ser educativa. O trânsito de Natal precisa de educação. Se você chegar agora no Alecrim, você vai encontrar um corredor de camelô de um lado, um corredor de camelô do outro, ai o ônibus ao invés de parar na parada, para na faixa central e sempre tem um caminhão de descarga na faixa esquerda, restando apenas uma faixa para se andar. Ou seja, se a gente tivesse a mobilidade educacional, os agentes públicos lá educando, orientando; ‘Rapaz, não pare este caminhão ai que você prejudica toda a coletividade… ’ a ideia de Fernando funcionaria. Além de termos corredores de ônibus – que não é para o empresário nem para o motorista, é para o cidadão, é uma questão de cidadania – deveria ser prioridade. Se você andar no anel viário do Planalto é uma vergonha! O que quebra mola de ônibus lá, amortecedor, suspensão… Ai o ônibus tem que recolher à garagem e perde o usuário que deixou de ter aquela viagem, um ônibus a menos na frota… Temos que dar prioridade ao transporte público.

Por Andreivny Ferreira e João Maria Gomes
Colaboração: Thiago Martins

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