UNIBUS Entrevista: “Estamos com um problema muito sério no transporte urbano de Natal”

Empenho e muito trabalho para resolver os problemas do trânsito e do transporte urbano em Natal. Foi o que prometeu a recém-empossada titular da Secretaria de Mobilidade Urbana de Natal, Elequicina Maria dos Santos. No cargo desde o último dia 02, a secretária está iniciando sua segunda passagem pela pasta (A primeira foi quando a SEMOB ainda usava a nomenclatura STTU) atuando na gestão do prefeito Carlos Eduardo Alves.
Para falar um pouco sobre seu trabalho, desafios do futuro e a atual situação do trânsito e do transporte urbano em Natal, Elequicina concedeu entrevista exclusiva ao UNIBUS RN, veiculada na edição de hoje do quadro “UNIBUS Entrevista”.
Perfil: Natural de Apodi, Elequicina Maria dos Santos é engenheira Civil e de Segurança do Trabalho, formada pela UFRN. Possui especialização em Planejamento e Gerência de Transportes, pela mesma Universidade. Dentre outras atividades profissionais, presidiu o Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Engenharia (CREA/RN) entre 2000 e 2005, presidiu também o Sindicato dos Engenheiros do Estado (SENGE/RN).
Funcionária efetiva do município, Elequicina atualmente faz parte do corpo técnico da Semob e é diretora-geral da Caixa de Assistência dos Profissionais do CREA (Mútua/RN), com mandato até 2014.
Esta é a segunda passagem de Elequicina pelo cargo. A primeira durou de 2003 a 2008, passando pelas gestões de Wilma de Faria e Carlos Eduardo Alves, quando a SEMOB ainda se chamava STTU (Secretaria de Trânsito e Transporte Urbano de Natal).
Entrevista: Elequicina atendeu a equipe do UNIBUS RN nas dependências da Superintendência de Comunicação da UFRN na última quarta-feira (09). Bem solícita a nossa equipe, nos atendeu com cordialidade, respondendo de maneira clara todas as perguntas formuladas.
Confira a entrevista com a secretária de mobilidade urbana, Elequicina dos Santos.
UNIBUS RN: A senhora assumiu no último dia 02 a SEMOB. Como a senhora encontrou a secretaria?
Elequicina: Bem diferente do que nós entregamos. Você sabe que, na gestão anterior, estava como secretária e posso dizer que encontrei muita coisa destruída do que a minha gestão havia deixado. Mas, espero virar esta página. Estou me organizando para estruturar a SEMOB, dando mais e melhores condições de trabalho para os funcionários, fazendo com que possamos atender melhor os anseios da comunidade.  
Como à senhora avalia a gestão de Márcio Sá, o seu antecessor, como titular da SEMOB?
Olha, cada um que fez parte da gestão do Márcio Sá, assim como o Jeferson [Pedrosa, então secretário adjunto da SEMOB] tentou fazer o melhor. Não quero aqui criticar ninguém. Mas, vendo de fora, digo que ficou muita coisa a desejar – basta vermos os problemas que se acumularam, até porque não sei quem se responsabiliza pelos fatos que ocorreram. Porém, é preciso fazer muita coisa. Mas, o que me deixou mais triste foi o andamento das obras da Copa, que já deveriam estar de vento em popa, em execução, e que encontrei os processos na estaca zero. Porquê? Porque vocês viram que, devido a ação de Carlos Eduardo antes de assumir, foi conseguida a assinatura para os contratos das obras. Nem mesmo o Ministério das Cidades possuía dados sobre o andamento dos contratos.

Falando nessas obras, a SEMOB também entrará, na gestão de Carlos Eduardo, na execução das obras da Copa. Como está a situação das obras hoje?
O prefeito já constituiu uma equipe que interliga a SEMPLAS, SEMOPI e SEMOB para que essas obras venham, enfim, a ser executadas. Tem determinados projetos que serão reavaliados, como os do Lote 01 [Que contempla avenidas como Felizardo Moura, Mor Gouveia, e o trecho da BR 226, que vai do KM 06 até a sede da Urbana, nas Quintas], onde tem coisas que não serão possíveis de serem feitas por vários motivos, como as desapropriações e não tiraram a Urbana, por exemplo. Então, com isso, estamos reavaliando as vias, onde nossos técnicos estão imbuídos para que isso aconteça, para salvarmos algum projeto do Lote 01. Do Lote 02 [Entorno da Arena das Dunas], nós estamos com o projeto executivo pronto e estamos prestes a publicar o edital da licitação.
E o prazo, secretária? Dá pra cumprir até a Copa?
Dá. Com certeza, o Lote 02 vai ser feito totalmente até o início da Copa. Já o Lote 01 deve ser feito parcialmente, já que estamos reavaliando as vias.
Mas, especificamente sobre a região da Urbana, sabemos que aquele é um gargalo de um trânsito cada vez mais complicado, além de ser um elo para uma área estratégica, que é a Zona Norte. Mesmo não dando para a Copa, a senhora pensa em alguma ação para resolver a situação do trânsito daquela área?
A região da Urbana pode não ficar pronta para a Copa. Mas, o prefeito vai persistir para que o projeto do entorno da Urbana seja executado em sua totalidade, mesmo não dando tempo para antes da Copa. Digo que as obras que serão feitas serão um legado para a cidade, até por que se espera resolver a situação daquela área dentro da gestão de Carlos Eduardo.
Em relação ao transporte público, como à senhora avalia a situação atual do sistema?
Olha, estamos com um problema muito sério. Temos alguns problemas até críticos. Principalmente a história da licitação. Essa licitação já era pra ter acontecido. E, agora, a situação gira em torno da suspensão do edital [pedida pelo Ministério Público, por suspeita de irregularidades no processo]. Então, com essa situação da licitação, estamos com uma equipe dedicada a esse processo, reavaliando a situação e dando algum parecer para a continuidade do certame. Tem também os problemas que estão dentro da cidade. Hoje, as empresas não conseguem cumprir os quadros de horários estabelecidos pela SEMOB, principalmente pela situação atual do trânsito, bem engarrafado, e como [o ônibus] não tem exclusividade em algumas vias, ele fica no engarrafamento, fazendo com que a população sofra com a grande espera pelo transporte. É um desafio grande que vamos enfrentar, porque é uma das coisas que devem ser vistas são as faixas preferenciais para que, pelo menos, o quadro de horários seja cumprido, melhorando o transporte público.
Quando esteve à frente da então STTU, na gestão passada do prefeito Carlos Eduardo, a senhora restringiu imensamente às operações das linhas da região metropolitana em Natal – foi o caso do bairro da Ribeira e do corredor exclusivo da Av. Bernardo Vieira, onde os ônibus de municípios vizinhos não puderam mais passar. Acontece que o prefeito, ainda durante a campanha eleitoral, afirmou que todas as políticas públicas, sobretudo na área de transporte, seriam integralizadas com a região metropolitana. E então, como se dará a gestão nesta nova administração?
Realmente, todo o plano de governo de Carlos Eduardo prevê metas nessa área de transporte, e nas reuniões que tivemos, o prefeito pede que persistamos para que o plano seja cumprido. E uma das metas é justamente tentar essa integração do transporte público com a região metropolitana. Porém, o que acontece é que, hoje, todas essas linhas de cidades vizinhas que circulam em Natal querem circular nos corredores das linhas de Natal, param nas nossas paradas e pegam nossos passageiros. A receita desses passageiros acaba, assim, indo para esses municípios, e não para Natal. Assim, encarece a tarifa, já que temos um sistema de transporte para a população de Natal usar, mas, infelizmente, boa parte desses passageiros se desvia para os veículos da região metropolitana. Por isso que as empresas de cidades vizinhas fazem questão de parar nas nossas paradas. E, aí, quem sofre com isso é a nossa população, diminuindo a receita pública, aumentando os custos – como o da tarifa. É por isso que restringimos muito e vamos continuar com a restrição até encontrarmos uma solução para esse problema, que já é uma pauta da nossa secretaria. Tal pauta não será tocada nesse primeiro mês, mas queremos o quanto antes resolver esse problema, onde já estamos com equipes estudando a situação dessas linhas para, depois, buscar o diálogo com esses municípios para que possamos ter um sistema como o de Recife ou de São Paulo, integrando a região metropolitana, mas diminuindo a quantidade de ônibus dentro da cidade.
Num primeiro momento, como seria essa integração?
A princípio, poderia ter um espaço onde eles parariam, como se fosse um terminal, fariam a integração com as linhas da capital, e aí os passageiros seguiriam para os seus destinos. Certamente, vai diminuir o trânsito, já que teremos menos ônibus nas ruas, melhorando assim a situação de quem usa seu carro.
Como já se sabe, o edital da licitação que já estava pronto, formulado pela gestão da ex-prefeita Micarla de Souza, será cancelado a pedido do prefeito. No novo edital a ser construído, é possível pensar numa licitação em nível metropolitano?
Não diria ser impossível. Mas, neste momento, é um cenário complicado, já que é muito pouco tempo para se pensarmos, hoje, em uma licitação metropolitana. Eu acredito que, com o nível dos estudos que estamos hoje, prestes a sair esse edital que o prefeito pediu o cancelamento, não teríamos tempo para incluir algum fator para se licitar a região metropolitana. Mas, pode ser feito de algum jeito de se agregar a região metropolitana depois. É um grande caminho ainda a percorrer.
Uma coisa que muito foi discutido, é que os opcionais perderiam grande parte de suas áreas de operação atualmente – deixariam de circular no Centro da Cidade, Petrópolis, Alecrim, Quintas… Circulariam apenas dentro de bairros, como complemento do sistema de ônibus. Além disso, até hoje a categoria pede a inclusão da bilhetagem eletrônica integrada nos alternativos. E agora? Eles permanecerão atuando em boa parte da cidade, ou se pretende que eles, de fato, sejam apenas um complemento do sistema de ônibus?
O transporte alternativo veio depois da lei que organizou o transporte público por ônibus. Tal criação se deu pela necessidade do serviço em certas áreas da cidade. Com isso, até hoje não foi possível fazer até hoje a integração, já que cada um ficou com sua lei e cada um com sua bilhetagem individual, prejudicando assim o usuário. Espero que, com o fim do processo da licitação, nós possamos enfim tratar mais a fundo da integração do transporte por ônibus com o transporte alternativo.
Muito se fala, secretária, que o controle da gestão do transporte hoje está na mão dos secretários. Qual será a relação entre SEMOB e SETURN na sua gestão?
Assunto complicado esse hein… Quem lembra da minha primeira gestão deve lembrar dos embates entre STTU e SETURN, porque não tínhamos informações concretas sobre o sistema, uma vez que o SETURN fornecia esses dados. Mas, através da fiscalização da então STTU, conseguimos essas informações, dados mais concretos e, assim, fazer um diagnóstico real do sistema, cruzando as informações deles com as nossas. É tanto que, quando se falava em reajuste da tarifa, tínhamos nossos dados – muito seguros, por sinal. Porém, como é uma outra realidade, ainda não tomei conhecimento da atual situação. Mas, minha equipe irá persistir para sempre termos essas nossas informações bem concretas. A gestão do transporte coletivo é da prefeitura e sempre buscaremos essas informações para, por exemplo, fazer um cálculo correto da tarifa, dimensionar ou criar alguma linha – tudo isso será com informações que iremos buscar, de preferência com nossos meios.
Como a SEMOB irá tratar a questão da dupla função feita pelos motoristas nos ônibus?
É uma situação que tem que ser discutida, pois a dupla função tem vários fatores. Um é o problema de eles serem colocados para fazer as duas funções, como é praticado em várias cidades. O outro são os cálculos do sistema, como o da tarifa, por exemplo. Nesse cálculo, colocamos dentre outras coisas o número de cobradores e de motoristas – com essa redução de cobradores, o custo foi para um certo patamar. No momento em que se incrementarem mais motoristas nessa dupla função, pode ser necessário um incremento no custo que norteia a tarifa. Porém, digo esses dados sem ainda ter conhecimento dos dados referentes ao número de profissionais trabalhando… 
Até por que, secretária, já existiu a figura, nos ônibus, de ter a dupla de motorista e cobrador…
Já existiu sim. Mas, em um certo período, já foram retirados alguns cobradores após a implementação da bilhetagem eletrônica. Porém, reitero: ainda não sei, dentro dos últimos cálculos feitos, a quantidade de motoristas e cobradores trabalhando. Se tiver hoje, por exemplo, 500 cobradores, os cálculos que lhe falei são em cima desse número. Na hora que forem acrescentados mais cobradores, esse cálculo será diferente naquele exemplo do cálculo de uma nova tarifa. Então, tudo isso temos que analisar com muito cuidado, para não trazermos problemas para o usuário. Mas, pode ficar ciente de que estamos buscando o melhor para o usuário do transporte coletivo. Só que também estaremos ao lado dos motoristas e cobradores para buscar melhores soluções pra eles, uma vez que eles é que estão nas ruas, dirigindo ou cobrando, junto ao usuário.
Uma das reclamações da população é sobre a qualidade do serviço, onde é recorrente o pedido de alguns para a vinda de ônibus maiores e climatizados, por exemplo, para a nossa cidade. Será mesmo previsto um investimento em ônibus articulados e até com ar condicionado, como o prefeito já comentou em entrevista?
A melhoria não deve ser pensada só no ônibus em si, como ar condicionado ou veículos articulados, por exemplo. Não é só isso. Em relação aos ônibus maiores, o plano de governo de Carlos Eduardo prevê a implantação do BRT, que já está em estudo pela SEMOB. No BRT, terão, por exemplo, faixas exclusivas para esse veículo, que é de maior porte. Só que essas faixas exclusivas já entram num segundo ponto, vital para a melhoria do sistema. Se você não melhorar a via para o ônibus, você não pode fazer nada, nenhum investimento. Não adianta colocar ônibus maiores ou com ar condicionado, se ele está em um engarrafamento. Pra você ter uma ideia da atual situação, o nosso quadro de horários prevê, após estudos, uma quilometragem ideal e o período de tempo daquele itinerário, respeitando os intervalos para os operadores. Só que, se for em uma linha de, por exemplo, 40 minutos, e pegar um engarrafamento onde fique por uma hora, se perde um controle, já que a empresa normalmente não tem veículo para colocar no lugar daquele que perdeu o horário da próxima saída, devido ao engarrafamento. Então, o primeiro passo é desobstruir a parte viária para o transporte coletivo, como várias cidades do mundo fazem, dando prioridade para o transporte público. Curitiba é um bom exemplo. Se não faixa exclusiva, como a da Bernardo Vieira, coloquemos faixas preferenciais. Essas e outras alternativas iremos buscar para poder ter um transporte de qualidade e também desafogar o trânsito.
Por Andreivny Ferreira
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Administração UNIBUS RN

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