Baldo: Mesmo interditado, moradores de rua se abrigam na estrutura do viaduto

Enquanto as atenções relacionadas à interdição do Viaduto do Baldo se voltam para as falhas na estrutura do passeio público e para o trânsito que ficou comprometido, outro problema ganha visibilidade: o local virou moradia para um grupo de sem-teto, que vive sem as condições mínimas de higiene.

O trânsito pelo viaduto está interditado desde 4 de outubro de 2012 e não há previsões de quando os reparos serão iniciados. Enquanto isso, o drama de quem vive ali vai além do risco de a estrutura ruir sobre suas cabeças. Drogas, violência, preconceito e a luta para vencer doenças crônicas, como o câncer, são alguns dos dramas vividos pelos moradores de rua.

Essa é a realidade do casal Francicleide Pereira, 48, e Inácio Alves, 37. Paraibana, ela está em Natal há quase dois anos, quando se tornou moradora de rua. Lavando roupas dentro do canal do Baldo, parecia não se importar com o risco de contrair doenças ocasionadas pela água suja, lixo, e mau cheiro proveniente dos resíduos e fezes, ou mesmo com o cigarro de palha que tragava.

Não bastasse esse infortúnio dessa situação, Francicleide tem câncer no pâncreas. Foi diagnosticada com a doença há cerca de dois meses e diz que está iniciando um tratamento na Liga Norte-Rio-Grandense Contra o Câncer – Hospital Dr. Luiz Antônio. Demonstrando tranquilidade, ela acredita que ficará bem e que vai se curar da doença. “O médico disse que o meu caso tem cura porque está no início. Assim que comecei a passar mal, procurei logo o posto (médico)”, relata.

Na ocasião em que conversou com a reportagem, Francicleide deveria estar no hospital. “Mas hoje não amanheci me sentindo bem, aí não tinha como ir a pé até às Quintas”, contou. Ela percorre quase quatro quilômetros entre o viaduto e o hospital. “Quase sempre vou ou venho a pé porque não tenho dinheiro para pagar o ônibus, mas já estou acostumada”.

A paraibana vive do dinheiro que pede às pessoas e das migalhas que o marido encontra no lixo e consegue vender. “Só dá para comprar alguma comida”, relata. Quando isso ocorre, ela cozinha ali mesmo em fogão a lenha que improvisa entre pedras. No entanto, aquele não parecia ter sido um dia lucrativo para o casal. “Pra você vê ó”, explicou, “Hoje ainda não comi nada. Estou com um café e um pão que comi ontem na hora do almoço”.

A aparência debilitada da mulher, provavelmente ocasionada pelas condições precárias em que vive, não se reflete nas suas atividades diárias. Além de ser pedinte e às vezes catadora de lixo, Francicleide tenta manter o local o mais confortável possível. Cultiva um discreto jardim, de onde ainda não brotaram flores e mantém o ambiente varrido e os objetos em ordem.

Entre os materiais que decoram o espaço estão, colchões, panos velhos, roupas, sofás, cadeiras, placas de carros, garrafas secas. Qualquer coisa parece servir para preencher o ambiente.

Um carro como casa: A casa do casal, propriamente dita, é um carro velho que, segundo o marido de Francicleide, Inácio Alves, foi incendiado duas vezes por “gente do mal” em ocasiões em que nem ele nem a mulher estavam por perto. Por isso, restam apenas as estruturas metálicas do automóvel, encobertas por panos.

No interior do veículo, porém, havia cinzas e objetos parecidos com cachimbos, indícios de que há fumantes ali. Ela garante que não é usuária de drogas, mas que à noite alguns usuários dormem por ali também. “Alguns viciados ficam lá daquele lado e eu no meu. Ninguém mexe com ninguém e cada um no seu canto”, esclarece. Em suas contas, mais quatro pessoas utilizam aquela parte do viaduto como moradia.

Quando Francicleide e o marido não dormem no carro velho, dormem na barraca presa com fios nas colunas do viaduto e coberta com pedaços de lençóis, sacos e lonas.

Inácio Alves encontrou com ela na Paraíba, quando os dois estavam de partida para Natal, há cerca de dois anos. Lá, ela morava sozinha. Há oito anos seus dois filhos, um de 25 e outro de 18 anos, foram morar com o pai em São Paulo e desde então perderam o contato com ela.

“Com o pai eles estão melhor, mas não tenho mais contato com eles. Mudei de lá (da Paraíba) porque vivia só, não tinha condições (financeiras) e como a casa era de parentes, ficavam me mandando sair”, relata. Desde que chegou a Natal a moradora vive nas ruas, mas diz que embaixo do viaduto sente-se segura.

De sua família, apenas o irmão mora em Natal. Segundo conta, ele também dorme embaixo do viaduto desde que se separou da mulher com quem vivia na comunidade do Passo da Pátria há alguns meses.

“A gente não pode sair”: O casal de moradores que vive embaixo do Viaduto do Baldo já sabe do risco de desabamento, mas não pretende sair do local. “A gente não pode sair daqui porque é onde a gente mora. Para onde vamos? Só saímos se mandarem a gente para uma casa”, declara Inácio Alves.

Ele diz que já morou no Conjunto Leningrado, na Zona Oeste e no bairro de Candelária, sempre nas ruas. “Quando deram casas a quem morava nesses cantos, eu não estava mais lá porque tinha me mudado, relata. Inácio vive catando lixo pela cidade e vendendo o que consegue. Na vizinhança do Baldo diz que já fez alguns trabalhos como capinagem e varrição das casas.

Eles contam que há alguns meses a presença de técnicos no viaduto passou a ter certa frequência fazendo medições na estrutura, mas não foi por meio deles que souberam da interdição. Assistiram nos televisores das cigarreiras e lanchonetes próximas, além dos comentários de pessoas conhecidas.

“Tenho medo não. Acho que se isso tivesse de cair já tinha caído. Ninguém veio ainda mandar a gente sair ou falar disso e acho que nem vêm. Até um sacolão que uma vez me prometeram nunca chegou”, relembra a mulher. Para ela, é mais seguro estar ali do que exposta em outras vias da cidade e, caso tenha que sair, faz apenas uma exigência. “Só tenho vontade de sair para um lugar que seja meu, mesmo que só dê para eu armar uma rede para dormir”, declara.

Secretaria avalia situação dos moradores: A Secretaria Municipal de Trabalho e Assistência Social (Semtas) já tem conhecimento sobre as pessoas que residem embaixo do viaduto interditado, mas ainda está estudando como fará para remover as pessoas que moram embaixo do viaduto, segundo o adjunto da pasta Sid Fonseca.

Ele, porém, não tinha informações sobre o assunto. O gabinete da titular da Semtas, Ilzamar Pereira, informou que a secretaria ainda está em fase de transição e por isso o caso ainda será avaliado. A secretária, no entanto, não esteve disponível para se pronunciar sobre o assunto quando a reportagem o procurou.

Na Promotoria do Meio Ambiente e Urbanismo do Ministério Público Estadual não há procedimento referente aos moradores do viaduto. A promotora Rossana Sudário não tinha conhecimento sobre o fato, mas disse que o assunto é de interesse da promotoria porque pode se tratar de invasão de área pública.

“Estas pessoas estariam morando num local público. É uma questão urbanística e por isso pode ser objeto de investigação da Promotoria do Meio Ambiente”, esclarece. Segundo informou, assim que se inteirar melhor do assunto poderá fazer a distribuição de uma possível ação que ficaria sob sua responsabilidade ou do promotor Márcio Diógenes.

Prefeitura procura recursos em Brasília: As obras para reparar a estrutura do viaduto do Baldo não tem data para começar porque a prefeitura ainda não tem dinheiro para investir. Na última terça-feira, o prefeito Carlos Eduardo esteve reunido em Brasília com o ministro da Integração Nacional Fernando Bezerra, a quem solicitou recursos para as obras do Baldo, mas precisará apresentar o plano de trabalho para que seja analisado pelo ministério.

“Na próxima semana o prefeito levará a justificativa técnica ao ministério, a planilha orçamentária e o plano de trabalho correspondente. Estimamos que sejam necessários R$ 2 milhões para essas obras”, informa o secretário adjunto de Obras Públicas e Infraestrutura João Tomaz Neto.

Entretanto, o prefeito precisará buscar recursos de outras para realizar as medidas emergenciais recomendadas no laudo técnico que identificou os problemas no viaduto. De imediato é necessário reparar uma parte da área sob o viaduto no trecho entre as avenidas Deodoro da Fonseca porque uma laje está comprometida. O laudo aponta o risco iminente de desabamento do equipamento. Esta nova área ainda deverá ser interditada. “As medidas emergenciais de escoramento estão sendo formatadas e vamos encontrar recursos de onde for porque não dá para esperar pelo do ministério”, ressalta João Tomaz.

A ideia da Semopi é seguir as orientações do engenheiro José Pereira, especialista na área de projetos estruturais e responsável pelo laudo técnico. “Ele recomendou o escoramento do canal e nos dois vãos que formam o viaduto para evitar acidente”, disse o adjunto da Semopi sem estimar a data de quando os reparos emergenciais serão executados.

Foto: Fábio Cortez (Novo Jornal)
Fonte: Novo Jornal

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