Mobilidade urbana sob novo prisma

As esperadas e onerosas obras de mobilidade urbana que estão sendo executadas em Natal pouco contribuirão para resolver o problema do trânsito. Ao contrário, irão comprometer a mobilidade dos pedestres e, pior ainda, devem prejudicar a vida comercial e social em seus arredores. As desanimadoras previsões são do especialista e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Rubens Ramos, mestre em Engenharia de Transportes, doutor em Engenharia de Produção e pós-doutor em Transportes na França, onde residiu e conheceu de perto o sistema de transporte da Europa.
Partindo do princípio de que a mobilidade urbana deve ser pensada inicialmente para os pedestres, ao invés de priorizar os veículos, Rubens Lemos diz que quase tudo na área de transporte público e mobilidade de Natal precisa ser repensado e que existem medidas simples, objetivas e baratas de serem executadas.
Recentemente a prefeitura anunciou que o município vai receber mais de R$ 577 milhões em obras na área de mobilidade urbana e que, entre os projetos, está a construção de túneis nos cruzamentos da Avenida Salgado Filho com as avenidas Bernardo Vieira, Antônio Basílio, Amintas Barros e Nascimento de Castro. Também está sendo projetada a construção de duas passarelas na Avenida João Medeiros Filho, 1.052 abrigos de passageiros, quatro estações de transferência e quatro terminais de ônibus.
“Os impactos são negativos em vista da vida social e econômica. Ao abrir um monte de túneis na avenida vai destruir a Salgado Filho. Em qualquer cidade de primeiro mundo, como Nova York, Paris, Londres, não se faz túnel ou viaduto para tirar sinal de cruzamento e resolver a mobilidade das pessoas”, diz Rubens Ramos.
Em sua concepção, sinal de trânsito não é pensado como sinônimo de problemas, uma vez que permite que os pedestres circulem nas ruas. É essa circulação que dá vida à cidade e alimenta os pontos comerciais. Como exemplo cita o sinal na Avenida Engenheiro Roberto Freire, Zona Sul, nas proximidades dos supermercados Hiperbompreço e Nordestão. “A existência daquele sinal cria um ambiente social e liga os dois lados da rua. É um trecho onde visivelmente há vida e mobilidade de pedestres”, diz.
As áreas que ele diz serem inviáveis para a instalação de semáforos são as rodovias. No trecho da BR 101, a partir do supermercado Carrefour até o viaduto de Parnamirim, não deveria haver sinais de trânsito, defende ele. São nestas áreas que os viadutos e passarelas se encaixam. “O problema dos viadutos é se eles estiverem dentro da cidade”, diz.
Outros locais viáveis para esses equipamentos públicos devem ser áreas de relevo acidentado para atravessar montanhas e dunas, por exemplo. “Ao meu ver, essas obras vão degradar as regiões ao entorno e acabar com o comércio porque não haverá mobilidade de pessoas, mas fluxo de veículos”, prevê.
No túnel que está sendo construído na Arena das Dunas, analisa o especialista, o problema que existia ali em termos de engarrafamento foi “empurrado” para o semáforo seguinte, na Avenida Miguel Castro. “Quando inaugurar esse viaduto, ele vai engarrafar por causa do sinal da Miguel Castro. Os carros que vierem em velocidade e fluindo pelo viaduto ficarão parados no sinal”, completa.
A solução, diz, seria manter a rotatória que havia na Prudente de Morais e ampliá-la para resolver o problema de fluxo com a Lima e Silva. “Soluções baratas, viáveis e mais agradáveis e que embelezariam a paisagem no entorno da arena”, assegura.
Passarelas também não são soluções para o problema da imobilidade urbana, segundo Rubens Ramos. Ele justifica que as pessoas não costumam usar estes equipamentos, temem pela segurança, além de prolongar o percurso.
Fonte: Novo Jornal

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