Garagem.com: Lâmina de vidro

Já se aproximam as vinte e duas horas, o que significa que é chegada a hora de retornar a casa após um longo dia de trabalhos e estudos. A noite está num clima agradável, não tão quente que possa fazer soar, nem tão fria que possa fazer tremer. No exato momento da partida surgem dois lados, dois mundos, invisíveis porém perceptíveis. São duas formas de ir a um mesmo destino.

Olha-se para um lado. É agradável aos olhos e conforta a mente. Neste é possível caminhar tranquilamente enquanto a brisa agradável da noite acaricia a face num movimento delicado. Por que não sorrir para o redor? É possível ouvir o vento fazer as árvores falarem. Há apenas um pequeno trecho a ser caminhado, cujo fim é comemorado com um clique, ou um alerta sonoro. Neste momento há agora um espaço totalmente individual, isolado do mundo.

Confortavelmente sentado, pode-se esfriar ainda mais a noite como consequência de uma completa isolação, mas para tal não há problema, afinal as vestes bonitas, limpas e cheirosas podem aquecer o corpo num delicioso conflito entre frio e calor. Tchaikovsky pode caminhar junto, trazendo consigo várias sensações, mas certamente a que sobressai é a certeza de que tudo vai muito bem.

Il faut arrêter. Há outro lado a ser visto. Costumam falar dele como sendo um lado que leva a uma solução. Solução de quê? É tido como bonito, mas olhando em seus olhos é possível enxergar sofrimento. Não é permitido contemplar por muito tempo, pois tempo é algo escasso e o relógio no braço grita que é hora de correr. Não há brisa, senão um rosto molhado de suor. A caminhada é longa, cujo fim é chegado acompanhado de um odor sombrio, regado a calor e ruídos como a de muitas engrenagens numa sinfonia pouco agradável. Neste momento não há espaço para individualidade, senão um ajuntamento de pequenos mundos.

Em pé, é possível contemplar uma humilde elite mais abaixo, gozando de uma ilusão de conforto quando é possível nela se iludir. O calor censura o uso de vestes mais confortáveis, pois a palavra de ordem é evitar peso extra. À exceção das engrenagens, é audível um silêncio sofrido. Rostos calados mas que gritam palavras como medo, raiva, humilhação. Solidão. Uma coletividade de solidões. Não há nenhuma melodia que possa dizer que está tudo bem, tampouco que traga a esperança de dias melhores.

Dois lados, dois mundos. Começam em direções distintas mas há um certo ponto onde ambos se encontram. No cruzamento dois mundos se enxergam, olho no olho. As engrenagens tentam em vão silenciar Tchaikovsky. A coletividade olha invejosa para a individualidade e a tranquilidade de sua trajetória. Dois lados, dois mundos, separados por uma lâmina de vidro.

Por Rossano Varela
rossano@unibusrn.com / rossano.varela@gmail.com

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