Rio: Desde eleito, Crivella mudou postura com empresas de ônibus

A postura de combate ao histórico descaso das empresas de ônibus com o serviço prestado aos cariocas foi um dos motes da campanha de Marcelo Crivella (PRB), que teve processo de impeachment aberto nesta ter;a-feira na Câmara dos Vereadores. Mas durou pouco. O prefeito, que chegou a prometer barrar reajustes tarifários enquanto a frota não estivesse 100% refrigerada, mudou de ideia um ano e meio após conquistar a confiança dos eleitores. Quem trabalhou na atual pasta de Transportes conviveu com a dificuldade do governante para resistir às pressões dos empresários.
Foto: Guilherme Braga Alves/Visual Hunt
Ex-assessor do vice-prefeito Fernando Mac Dowell — este faleceu em 20 de maio de 2018 —, Atílio Flegner, 25 anos, acredita que a visão política de Crivella tenha sobressaído aos planos de Mac Dowell para a Secretaria de Transportes (SMTR), da qual foi titular. “O primeiro aumento, de R$ 3,60 para R$ 3,95, foi anunciado em junho do ano passado, quando o vice-prefeito tinha falecido há cerca de 20 dias”, ressalta.
O primeiro aumento foi fruto de acordo de Crivella com os consórcios, em meio a ameaças de paralisação e brigas judiciais. Como parte da negociação, o prefeito cedeu novo prazo para a frota ser climatizada por completo: 2020. Em fevereiro de 2019, veio o segundo reajuste, para R$ 4,05. Em dezembro de 2017, no entanto, Mac Dowell apresentou um estudo próprio que apontava a tarifa justa sendo R$ 3,09.
“Em uma reunião no Palácio da Cidade com empresários, enquanto o Mac Dowell mantinha pulso firme, Crivella tentava apaziguar a situação. O prefeito teve a visão mais política de jogar água fria na briga. E o Mac Dowell não se importava com isso porque não ia se candidatar a nada”, diz Flegner. Antes de morrer, o vice-prefeito foi afastado do comando da SMTR e transferido para um órgão consultivo.
Falta de pulso firme de Crivella com empresas de ônibus prejudica passageiros
A falta de pulso firme da Prefeitura do Rio com as empresas de ônibus incentiva a má qualidade do serviço. O baixo valor das penalidades impostas seria uma possível causa para o reiterado descumprimento dos contratos, conforme apontou análise técnica do Tribunal de Contas do Município (TCM-RJ). Segundo a Secretaria Municipal de Transportes (SMTR), o número de multas aumentou 31,4% no ano passado — foram 11.566 no período, ou uma a cada 46 minutos — em comparação com 2017, com 8.802 multas. Mas os passageiros continuam sofrendo todo tipo de descaso e não veem a concretização de promessas de campanha do prefeito Marcelo Crivella para a mobilidade.
Para estabelecer tal análise, o TCM levou em conta que as multas vêm aumentando ano a ano. Segundo o órgão fiscalizador, a decisão sobre aumento dos valores cabe à prefeitura. O total ultrapassou R$ 10 milhões em 2017 e foi a quase R$ 15 milhões em 2018. Foram pagas 69% das sanções aplicadas no primeiro ano da atual gestão e 36,44% no segundo ano. Segundo a SMTR, as outras estão em recurso ou no prazo. O órgão esclareceu ainda que procedimentos administrativos necessários à execução das penalidades podem ser aplicados após extinguir a esfera de recurso, mas não mencionou quais.
Comissão de Transportes da Câmara Municipal, por sua vez, cobra postura mais firme com os empresários. “Não adianta ficar multando, porque para eles é mais uma multa, e não pagam. As medidas têm que ser mais severas, como começar a cassar o direito de operação da linha. Mas, para isso, tem que dar condições para que as empresas possam trabalhar”, avaliou o vice-presidente da Comissão, vereador Felipe Michel (PSDB), ressaltando que a prefeitura precisa resolver o planejamento das linhas que não seriam rentáveis.
Das dez promessas do plano de governo de Marcelo Crivella para mobilidade, pelo menos cinco não foram cumpridas no prazo: concluir o BRT Transbrasil até 2017, exigir aumento de 20% na frota do BRT até 2018, ampliar para três horas o prazo de uso do Bilhete Único Carioca e estendê-lo para o metrô até 2018, fazer licitação das vans da Zona Oeste em 2017 e garantir junto ao Estado a inauguração do metrô na Gávea em 2017.
Segundo a prefeitura, o novo prazo para o Transbrasil é outubro de 2019. Quanto ao Bilhete Único, uma pauta foi aprovada na Câmara este mês e aguarda sanção do prefeito. Sobre a licitação das vans, informou que os itinerários estão sendo avaliados em cumprimento a uma decisão judicial para retomar o processo previsto. Em relação à frota do BRT e ao metrô da Gávea, o município não comentou.
Reimont (PT) pediu ontem que o Ministério Público cobre à prefeitura a execução de cinco leis não cumpridas. Entre elas, a volta dos cobradores. Sobre a SMTR, outro vereador, Alexandre Isquierdo (DEM), presidente da Comissão de Transportes, diz: “Falta foco da secretaria. É uma pasta muito problemática”.

Linha 512 só tem um ônibus
Há sério risco das empresas de ônibus não cumprirem o último prazo acordado para refrigerar 100% da frota até 2020. A sinalização é do vereador Felipe Michel, que diz ter sido alertado por fontes do setor. Foi uma condição imposta pelo prefeito para conceder o último reajuste. A prefeitura não comentou.
À população, resta esperar melhorias. “Houve redução de articulados, além de só andarem lotados”, reclamou a faxineira Patrícia Dias, da Cidade de Deus, que usa o BRT e linhas alimentadoras. Em Bangu, muitos veículos da Transportes Campo Grande rodam com pneus carecas e sem ar. A empresa informou garantir manutenção periódica, mas fará vistoria extra. A Zona Sul também tem problemas, como escassez de linhas na Urca. Uma delas, a 582, antiga 512, que oferecia deslocamento para outros bairros da região, como Leblon e Copacabana, só conta com um carro. A demora chega a uma hora e meia.
O Dia – RJ

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