Artigo – O custo socioeconômico da imobilidade urbana no Brasil

Um estudo realizado pela Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP) mostra que o custo socioeconômico da “imobilidade” urbana no Brasil cresceu 7% em um ano e se aproxima de meio trilhão de reais. Só o tempo que as pessoas gastam no deslocamento casa-trabalho-trabalho-casa resulta em um prejuízo de mais de R$ 111 bilhões.
Foto: Ilustração/Arquivo – UNIBUS RN
De acordo com o estudo o gasto com transporte já pesa mais no bolso das famílias brasileiras do que as despesas com alimentação. Além disso, no Brasil, crescem também as perdas globais com falta de planejamento urbano, ausência de políticas públicas adequadas e horas perdidas nos deslocamentos.
O custo socioeconômico da mobilidade urbana foi estimado em R$ 483,3 bilhões anuais no estudo que a ANTP divulgou no ano passado, partindo de dados de 2016. Na comparação com o ano anterior, o número representa alta de 7%.
O cálculo considerou as informações de 533 cidades com mais de 60 mil habitantes, nas quais vivem 133,5 milhões de pessoas (65% da população) e por onde circulam 39 milhões de veículos.
Entram na conta os gastos dos usuários de transporte ou empregadores (quando há uso de vale-transporte), os recursos do poder público para manter o sistema em funcionamento e os impactos sociais da movimentação das pessoas.
No aspecto social são considerados os pesos da emissão de poluentes, de acidentes de trânsito e da poluição sonora.
Reflexo da aposta histórica do Brasil no modelo de transporte individual, a pesquisa revela que menos de um terço de todas as viagens é feito de carro ou de moto, mas corresponde a 82% dos gastos das pessoas.
Sabe-se que as cidades brasileiras cresceram em velocidade superior à capacidade de planejamento urbano e à oferta de transporte, como repetem especialistas.
O estudo da ANTP mostra que, embora existam mais de mil quilômetros de corredores de transporte público em 55 cidades brasileiras, somente 20% da população de nove regiões metropolitanas mora perto de uma estação que dá acesso a essas vias.
Os indicadores são do ITPD Brasil (Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento), que monitora a mobilidade no País.
A imobilidade urbana pesa no bolso do cidadão. Na pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018 do IBGE, pela primeira vez as despesas dos brasileiros com transporte superaram os gastos com alimentação. Deu 18,1% a 17,5%.
Na série histórica, a lógica sempre foi outra. Em 2002-2003, por exemplo, alimentação consumiu 20,8% do orçamento, e transporte levou 18,4%.
A discussão sobre o peso do transporte para as famílias passa pelo modelo de subsídios. No Brasil, fica em torno de 35% dos custos totais do sistema. Nas regiões metropolitanas da Europa, varia entre 40 e 60%.
O Brasil investe em mobilidade um quarto do valor que deveria investir por duas décadas para garantir um sistema que funcione. Os investimentos no setor de transporte devem somar R$ 43,85 bilhões este ano, ou seja, 0,62% do PIB. O razoável seria investir 2%.
O desafio da mobilidade urbana brasileira é duplo. É preciso investir mais e melhor, com um planejamento eficiente dos recursos.
Jaime de Angeli é secretário-geral do Setpes – Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Espírito Santo

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