Transporte sob demanda: nova tendência?

Os mercados de diversos segmentos estão se movimentando para buscar inovações e outras formas de solucionar problemas antigos, assim como otimizar estratégias atuais. Com o desenvolvimento digital, o acesso a produtos e serviços ficou mais rápido e flexível no atendimento da demanda dos usuários e, claro, a mobilidade urbana também vem acompanhando essas novas tendências. Exemplo disso é o surgimento de sistemas alternativos, complementares ao modelo tradicional e com alta tecnologia agregada, como é o caso dos serviços de transporte sob demanda.

Foto: Divulgação/CityBus

Diferente das redes tradicionais com horários e rotas preestabelecidas e planejadas, o sistema on demand funciona como um serviço reativo, atrelado totalmente à demanda dos usuários. Em uma plataforma digital que conecta o usuário ao operador do veículo, o transporte coletivo on demand nasce com características muito parecidas ao modelo de oferta dos aplicativos de transporte individual.
O passageiro solicita a viagem informando sua localização e o destino desejado, e a plataforma direciona qual veículo irá atendê-lo. Apesar das semelhanças, o modelo que está sendo criado para o transporte público tem um objetivo que vai além da necessidade do conforto do usuário. Ele só faz sentido se for capaz de otimizar a rota, reduzindo o custo do passageiro transportado por quilômetro rodado.
O investimento inicial em tecnologia também precisa ser considerado. Serviços desse tipo exigem o desenvolvimento de pelo menos três plataformas digitais: um aplicativo para o usuário, um para o motorista e uma plataforma de gerenciamento do serviço. Por trás de tudo isso existe um algoritmo que faz a otimização da rota. É através dessa inteligência que os passageiros recebem a indicação do veículo que irá atendê-los e o motorista é direcionado ao cliente. Outra funcionalidade característica dos serviços sob demanda é a reserva de assento no veículo. No momento em que um usuário confirma sua solicitação, o sistema reserva uma vaga, impedindo que outro passageiro ocupe o mesmo lugar no trecho escolhido.
O mais importante é que o novo serviço seja incorporado à rede pública de transporte de passageiros de forma a evitar a concorrência predatória e com o objetivo maior de trazer novos passageiros para o transporte coletivo.
Iniciativas pelo mundo
Muitos países já entraram na era da mobilidade inteligente e usam a tecnologia como forma de diminuir os fluxos de carros nas vias. Um exemplo vem de Cingapura, onde um projeto-piloto de transporte coletivo on demand já substitui parte das rotas de ônibus de baixa demanda. O serviço entrou em operação em dezembro de 2018 atendendo finais de semana, em rotas e horários específicos.
Em Sidney, na Austrália, o serviço é usado para cobrir o início e o final das jornadas, de forma integrada aos serviços oferecidos pelos operadores locais de ônibus. O serviço de ônibus sob demanda também está disponível em Dubai. Para usá-lo, o usuário precisa baixar o aplicativo e reservar o assento; em seguida, o ônibus seguirá até a parada mais próxima do passageiro. Detalhe: a viagem é grátis quando o usuário se registra.
Exemplos brasileiros
Um dos exemplos desse novo serviço sob demanda no Brasil vem da operadora Metra de São Paulo, que criou em parceria com a empresa de tecnologia UBus um exclusivo serviço de transporte coletivo urbano sob demanda via aplicativo. A rota passa pelo corredor que liga a cidade de São Bernardo do Campo à região da Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini, novo eixo empresarial da capital paulista. A linha seletiva 376-SBC da empresa é a primeira a oferecer um transporte urbano diferenciado, com a compra de passagem via aplicativo e veículos de última geração; os ônibus contam com os mais avançados recursos tecnológicos, como entretenimento a bordo via streaming, Wi-Fi de banda larga, tomadas USB em todas as poltronas, ar-condicionado e assentos que podem ser escolhidos e reservados.
Segundo a diretora executiva da Metra, Maria Beatriz Setti Braga, o objetivo é atrair mais clientes para o transporte coletivo e melhorar a mobilidade urbana e o meio ambiente. “Criamos um serviço diferenciado e exclusivo que alia os benefícios do transporte coletivo em relação ao transporte individual, tais como redução da emissão de poluentes e do congestionamento, com as vantagens de o usuário otimizar o seu tempo”.
Segundo o diretor de Operações da UBus, Victor Gonzaga,  a inteligência de pesquisa do sistema é realizada através de cálculos de área de geolocalização utilizando os pontos de origem e destino informados no momento da pesquisa, a partir da localização das rotas, que são desenhadas no mapa utilizando polígonos matemáticos e recursos de Interface de Programação de Aplicativos (API) de terceiros.
Foto: Victor Oliveira Santos/Ônibus Brasil
A atualização em tempo real do trajeto do transporte para o passageiro e motorista é realizada em duas etapas: uma do aplicativo contido dentro do veículo, o qual é responsável por enviar informações de geolocalização para um sistema de gerenciamento interno, e outra do aplicativo do passageiro, que apresenta para o usuário as informações atualizadas.
Com o app baixado no celular, o usuário deve fazer a solicitação para o endereço desejado e colocar o ponto de partida. O aplicativo verifica a rota, dá as opções de marcação de assento, informa horário do embarque e dá uma previsão do desembarque e valor da passagem. Ao entrar no ônibus, o usuário valida a sua passagem com a leitura de um QR Code, que fica disponível na entrada do veículo, através do aplicativo. Simultaneamente as informações aparecem para o motorista em um tablet anexado ao painel do veículo, por meio do qual ele acompanha todos os dados relacionados à viagem.
Para Milena Romano, vice-presidente da UBus, o lançamento da parceria entre o aplicativo e a Metra foi fundamental para inspirar o setor e mostrar que é possível pensar em soluções de tecnologia para ajudar a resolver a questão da mobilidade no país. “O transporte on demand está ganhando cada vez mais espaço, e fazer isso em grande escala é uma ótima solução para o problema de mobilidade nas grandes cidades do mundo. No final, quem ganha é o passageiro”, diz.
Em Goiânia, a HP Transportes Coletivos lançou, em parceria com a empresa internacional de tecnologia Via, o CityBus 2.0, um serviço de transporte complementar sob demanda por aplicativo de celular. Em cinco meses de operação, mais de 38 mil pessoas se cadastraram para usar o transporte. Uma pesquisa da HP revelou que quase todos os clientes migraram do uso de carros próprios ou de aplicativos de transporte individuais para o novo modelo coletivo. O serviço foi o primeiro da América Latina a introduzir um sistema de ônibus sob demanda totalmente flexível, operado por uma empresa de transporte público.
O algoritmo da Via conecta, em tempo real, vários passageiros indo na mesma direção, criando um serviço de transporte acessível e conveniente. Considerando as variadas solicitações de viagens, possíveis rotas, locais de embarque e desembarque e assentos disponíveis por veículo, o algoritmo calcula milhões de viagens possíveis em menos de um segundo.
Isso permite que a plataforma mova um grande volume de passageiros, usando uma fração do número de veículos utilizados por outros serviços sob demanda. O roteamento inteligente do algoritmo possibilita que os clientes sejam embarcados e desembarcados em um fluxo contínuo, com desvios mínimos de rota para acomodar outros passageiros. O modelo implantado na capital de Goiás será adotado em breve em várias outras cidades brasileiras.
O diretor de Relações Públicas da Via, Andy Ambrosius, afirma que a construção de um transporte confiável é um desafio fundamental que deve ser enfrentado. “Felizmente, várias cidades líderes da América Latina estão se adaptando rapidamente para enfrentar os desafios do transporte público e estão explorando como o transporte sob demanda pode alcançar os mesmos benefícios ambientais e de redução de congestionamentos do transporte de massa por uma fração do custo”.
Outras empresas já trabalham no aprimoramento de tecnologias para a mobilidade urbana. É o caso da Empresa 1, que apresentou recentemente ao mercado uma solução de transporte sob demanda já utilizada nos Estados Unidos e Canadá. O produto foi originalmente desenvolvido pela Trapeze NA, empresa que faz parte do Grupo Volaris, ao qual a Empresa 1 está atualmente ligada. A solução se baseia em mais de duas décadas de experiência em tecnologia para mobilidade e ITS da Trapeze, garantindo uma ferramenta robusta de planejamento de viagens, segundo a empresa.
A Empresa 1 estuda formas de adaptação do produto ao mercado brasileiro. A proposta é viabilizar a integração do sistema de bilhetagem eletrônica com soluções de transporte sob demanda, permitindo que, além do pagamento com cartão de débito e crédito, o usuário use os próprios cartões do transporte público para custear o serviço.
“Apesar do grande potencial, entendemos que, pelo menos na maioria das cidades, o on demand não é capaz de sobrepor toda a estrutura do modelo tradicional. Ele vem para substituir parte das rotas fixas por um serviço mais flexível, principalmente nos casos em que os veículos circulam com a demanda muito abaixo da sua capacidade. É a chance de oferecer um transporte mais acessível, seguro e dinâmico”, explica o diretor comercial da Empresa 1, Romano Garcia.
Bikes por demanda
As bicicletas compartilhadas também são um exemplo de serviço de transporte sob demanda que auxiliam na micromobilidade, com possibilidade de integração com o transporte público. A ideia de implantar o sistema de bicicletas compartilhadas da empresa Serttel surgiu a partir do Vélib’ — serviço de bikes elétricas da França. As primeiras estações foram inauguradas em 2009 no Rio de Janeiro, tornando-se o primeiro serviço da modalidade na América Latina. Após alguns anos de dificuldades tecnológicas e financeiras, a empresa conseguiu o patrocínio do Banco Itaú, que reformou todo o sistema e lançou o BikeRio, sucesso de viagens na cidade carioca que lançou um novo olhar sobre a implementação de bicicletas públicas no país. “Ninguém tinha feito nada disso até então. Com isso a gente cresceu e foi para as cidades da Copa do Mundo e depois para as cidades das Olimpíadas”, conta o presidente da Serttel, Ângelo Leite.
Atuando em diversas cidades brasileiras e também no México e no Equador, a empresa desenvolveu um BackOffice nas bicicletas públicas que acompanha em tempo real toda a operação dos projetos. Nas estações existe um software que roda em uma CPU gerenciando todas as travas e as posições de bicicletas. As bases têm um chip no pino de travamento que, quando conectado, identifica a localização da bike, a que horas foi retirada ou devolvida e para qual usuário foi destinada.
Quando uma bicicleta é solicitada pelo usuário no aplicativo, o mesmo se conecta com o sistema que está nas nuvens e identifica se o usuário tem permissão para pegar a bike. O servidor se comunica então com a estação e verifica como está a situação das bicicletas disponíveis, autorizando a CPU da estação a liberar a trava que controla o veículo. Essa trava é acionada, a bicicleta é retirada e, em seguida, a CPU verifica se a bicicleta foi efetivamente levada pelo usuário. Daí, é dada a baixa na estação até que a bike seja conectada novamente naquele ou em outro lugar.
“Por ser em tempo real, o sistema tem um algoritmo por trás que identifica estatísticas de ocorrências e gera informações relevantes para a manutenção, como também para a operação. Por meio do sistema, a gente também identifica os picos de estação cheia ou vazia e os locais onde precisam ter mais estações ou estações menores para que o sistema não fique com falha de entrega de bicicletas”, explica Ângelo Leite.
Desafios da regulação
A mobilidade tende a mudar consideravelmente nos próximos anos, e esta mudança certamente incluirá a inserção de inovações digitais no transporte. As tecnologias já estão aí, prontas para deixar o transporte mais eficiente, seguro e sustentável. O on demand é um forte instrumento capaz de contribuir para a atualização e o planejamento da mobilidade urbana, mas é importante reconhecer que legislações ultrapassadas podem ser um obstáculo para a inclusão do novo tipo de serviço, como enfatiza o diretor comercial da Empresa 1. “Os órgãos reguladores precisam avançar na conciliação das novas tecnologias com o modelo de concessão em vigor. Do lado dos operadores e da indústria, é necessário ampliar os escopos de integração dos recursos e serviços já ofertados e planejar a incorporação das novas tecnologias que favorecem a melhoria de qualidade do serviço”, pontua.
Para o presidente da Serttel, o governo tem o papel fundamental de fazer as modificações nas regulamentações e acompanhar as mudanças tecnológicas para melhorar a mobilidade do país. Ele diz ainda que o mercado de transporte brasileiro e latino-americano, com intenso congestionamento de tráfego e infraestrutura desatualizada ou sobrecarregada — física e digital —, exige soluções de trânsito inovadoras que repensem radicalmente o transporte.
“A construção de um transporte confiável é um desafio fundamental para muitas cidades brasileiras. À medida que as cidades crescem, fica difícil continuar a desenvolver transportes públicos acessíveis e eficientes. Atender parte da população com rotas fixas de ônibus de baixa frequência, somente para dizer que todo residente tem acesso ao transporte público, não parece que seja uma solução”, conclui Ângelo.
Revista NTUrbano Ed. 41 Setembro/Outubro de 2019

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