O exemplo inspirador da cajazeira no asfalto

O exemplo inspirador da cajazeira no asfalto

Do Portal Mobilize Brasil/Brasília para Pessoas
Foto: Anderson Vieira

A notícia é inspiradora. Em meio a tantas manchetes negativas, a foto da árvore no meio do asfalto chamou atenção. Em Paraíso do Tocantins (TO), a prefeitura decidiu poupar o pé de cajá. A rua foi asfaltada, mas a árvore continua de pé, embelezando o ambiente.

Uma demonstração clara e prática de atitude inteligente. A cajazeira não só foi poupada, como ganhou acessórios que a protegem (e por extensão protegem os mais vulneráveis – pedestres e ciclistas): lombadas, balizadores e tachões refletivos. Na lógica tradicional (rodoviarista), a árvore, ou melhor, as árvores facilmente cederiam espaço para o asfalto, para o ‘progresso automotivo’. O asfaltamento e a ampliação de vias têm como requisito a ‘limpeza’ da área.

Aliás, ao ler a notícia, me lembrava das árvores marcadas para morrer (literalmente, como mostra a foto abaixo) no final da Asa Norte, em Brasília. Na famigerada obra do TTN (‘Terrível Trevo Norte’) para construir mais pistas e viadutos, boa parte da vegetação próxima ao lago Paranoá foi derrubada, sem cerimônia. O verde agradável – com muitas corujas e quero-queros nos canteiros – se tornou um cinza inóspito. Agora, em vez do som dos pássaros, o ronco dos motores predomina nas inúmeras pistas construídas.

Árvores marcadas no final da Asa Norte, nas obras do TTN. Foto: Uirá Lourenço

O exemplo de Tocantins me faz pensar sobre cidades inteligentes. Participei este mês de um evento virtual e inovador (Mob.Inc) de debate e criação de produto na área de mobilidade. Uma das boas conversas foi sobre cidades inteligentes. Há consenso que o conceito não se resume a aspectos tecnológicos. Uma cidade pode ser hiperconectada (com wi-fi livre e gratuito), mas não inclusiva e, portanto, desinteligente. Para exemplificar, a alta tarifa do transporte coletivo torna a cidade excludente.

Não conheço detalhes de Paraíso do Tocantins, mas imagino que a pequena cidade (de 50 mil habitantes, segundo pesquisa rápida no mr. google) não tenha tantos recursos tecnológicos à disposição do cidadão. De qualquer forma, a nobre atitude de manter e proteger a cajazeira na pista indica uma administração inteligente, inovadora.

“A gestão municipal reforça que a obra de pavimentação asfáltica nesta localidade, foi alterada para preservar à árvore cajazeira típica da região. Uma vez, que feita a pavimentação, a gestão está concluindo a sinalização na via, a fim de orientar os condutores que trafegam na mesma sobre a existência do pé de cajá.” (Nota da Prefeitura de Paraíso (TO) Fonte: G1)”

Rodoviarismo desinteligente

Coincidentemente publicada na mesma data (16/7), outra notícia revela o oposto: a desinteligência governamental. O anúncio da licitação de mais um viaduto em Brasília com o objetivo de escoar a grande frota automotiva do bairro Sudoeste por dentro do Parque da Cidade. Uma obra cara (R$ 26 milhões) que vai incentivar ainda mais o uso do carro (o automóvel representa 47% dos deslocamentos no Distrito Federal) e, em nome do ‘progresso’, devastará uma grande área verde.

Área onde será construído o viaduto, na EPIG. Foto: Renato Araújo/Agência Brasília.

Segundo a notícia, os semáforos serão retirados para dar “mais fluidez no trânsito”. Ou seja, as condições vão piorar ainda mais para os sofridos pedestres. Atualmente, são poucos os pontos de travessia na EPIG (Estrada Parque Indústrias Gráficas). Num dos poucos locais com semáforos, o tempo de espera é de ‘apenas’ 11 minutos!

Em suma, o Governo do Distrito Federal insiste num modelo comprovadamente insustentável, com foco no automóvel e na fluidez máxima, em detrimento da segurança no trânsito e dos modos saudáveis de locomoção. Jane Jacobs, ativista e grande referência em cidades humanizadas, alertava na década de 60 sobre a ‘erosão das cidades pelos automóveis’:

“A erosão ocorre como se fossem garfadas – primeiro, em pequenas porções, depois uma grande garfada. Por causa do congestionamento de veículos alarga-se uma rua aqui, outra é retificada ali, uma avenida larga é transformada em via de mão única, instalam-se sistemas de sincronização de semáforos para o trânsito fluir rápido, duplicam-se pontes quando sua capacidade se esgota, abre-se uma via expressa acolá e por fim uma malha de vias expressas. Cada vez mais solo vira estacionamento, para acomodar um número sempre crescente de automóveis quando eles não estão sendo usados.” (Morte e vida de grandes cidades, p. 389)

O recado que o cajazeiro protegido passa é que a gestão inovadora de uma cidade depende muito da vontade política, e não necessariamente de grandes obras. No fundo, a árvore sobrevivente no centro da pista representa outros atores urbanos desprezados e que também deveriam estar no centro das atenções: pedestres e ciclistas muitas vezes sufocados pelo asfalto e pelo ‘progresso automotivo’. Por mais cidades com pés de cajá, ingá e pequi!

Por Uirá Lourenço/Brasília para Pessoas

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Redação UNIBUS RN

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