Aplicativos põem em xeque a cultura do automóvel

Aplicativos põem em xeque a cultura do automóvel

Do Valor Econômico
Foto: nuclimeditorial/Visual hunt

Você não precisa mais ir a uma loja e comprar centenas de DVDs para ter acesso a uma extensa coletânea de filmes e séries e nem tampouco ser um colecionador de CDs e discos para aproveitar dezenas de milhares de músicas. E se essas mudanças no conceito de propriedade que surgiram graças aos serviços digitais se estendessem para bens maiores e (muito) mais caros?

Essa é a ideia dos aplicativos de compartilhamento de veículos (ou em inglês, carsharing), que recebeu um novo fôlego por conta das discussões que se abrem sobre o futuro pós-pandemia.

Vale a pena gastar dezenas de milhares de reais para ter um carro que ficará a maior parte do tempo na garagem?

Assim como algumas cidades na Europa já debatem alterações permanentes para a mobilidade, com maior oferta de ciclovias e espaços de circulação para os pedestres, as mudanças no trabalho (com o “home office” integral ou em maior parte do tempo) também implicam em consequências para a maneira como nos relacionamos com os carros.

Afinal, valerá a pena gastar dezenas de milhares de reais para possuir um veículo que ficará a maior parte do tempo na garagem? É a partir desse questionamento que empresas de compartilhamento de veículos por aplicativos planejam ganhar espaço nas cidades do Brasil e do mundo.

Um dos principais serviços atualmente em operação no país é a Turbi, criada em 2017. Para se diferenciar das grandes companhias que oferecem aluguel de veículos, a startup aposta em tecnologia para diminuir as burocracias e garantir a segurança do usuário.

Com 1 mil carros disponíveis em dezenas de pontos nas cidades de São Paulo, Guarulhos e Barueri (na região de Alphaville), a Turbi oferece modelos de diferentes fabricantes, como Chevrolet Onix, Hyundai HB20, Mitsubishi ASX e Mini Cooper S.

Para realizar o cadastro, basta incluir informações básicas (como nome e e-mail) e tirar uma foto da CNH. É aí que começa a inovação: graças à inteligência artificial, que consegue “ler” e processar todas as informações presentes na carteira de habilitação, o sistema de segurança da Turbi realiza um cruzamento dos dados do usuário com diferentes bancos de dados.

“Há o reconhecimento multifacial, em que comparamos a foto do usuário com o documento, consulta pública de processos, protestos, antecedentes criminais, análise de crédito. E tudo isso demora cerca de três minutos, com aprovação praticamente em tempo real”, diz Diego Lira, um dos sócio-fundadores da Turbi.

Para desbloquear o carro, basta entrar no aplicativo e enviar uma “selfie”, para comprovar que o usuário é o mesmo dono da CNH. O veículo é automaticamente destravado e está apto para ser utilizado.

A Turbi não é a única startup a investir no serviço de “carsharing” no Brasil. Aliás, uma das pioneiras começou a operar no mercado nacional em 2009, anos antes da chegada de aplicativos de mobilidade como Uber e Cabify. Após oferecer aluguel de veículos pela internet, a Zascar lançou em aplicativo de compartilhamento de veículos em 2016, oferecendo uma frota de 130 carros na cidade de São Paulo.

Em 2019, entretanto, a statup decidiu encerrar suas atividades ao consumidor final, focando suas operações a partir de parcerias com empresas.

A dificuldade desses serviços ganharem força no Brasil já se refletiu em outros modelos de “aluguel por aplicativo”, como nas bicicletas e patinentes elétricos. Com a expectativa de se transformar em uma empresa com valor de US$ 1 bilhão, a Yellow teve de recuar de sua estratégia agressiva e recolheu seus patinetes em 14 municípios do país em janeiro deste ano.

Isso se explica na hora do usuário calcular o que é mais fácil e rentável no momento de se deslocar pela cidade. No caso da Turbi, por exemplo, os preços são cobrados por hora, com o acréscimo de R$ 0,50 por quilômetro rodado. O aluguel também varia conforme o modelo: utilizar um Chevrolet Onix 1.4 automático custa R$ 10 a hora, enquanto andar como um Mini Cooper Cabrio 2.0 custa R$ 40 pelo mesmo período de uso.

Ao calcular a comodidade e o preço final, os apps de “carsharing” ainda ficam no meio do caminho. Enquanto solicitar um aplicativo de transporte é mais cômodo para viagens curtas – o motorista vai até onde você está e não é necessário procurar o local onde o carro de aluguel está disponível – uma diária de uma locadora convencional também é mais barata. Na média, as grandes empresas do setor cobram cerca de R$ 100 reais por uma diária de um modelo automático na cidade de São Paulo – na Turbi, isso custaria R$ 240 reais, mais o preço dos quilômetros rodados (o combustível não é cobrado, entretanto).

Para se diferenciarem, os serviços de aluguel por aplicativo argumentam que, além de serem menos burocráticos, também proporcionam ao motorista escolher qual carro irá utilizar (enquanto isso não é sempre possível de ser realizado nas grandes locadoras).

Além disso, apostam no conforto e exclusividade. “Alguns motoristas de aplicativos não gostam de transportar animais de estimação, então colocamos kit pets com manta e cinto de segurança em todos os carros”, conta Diego Lira.

Especialistas em mobilidade urbana acreditam que os serviços de “carsharing” serão uma tendência crescente nos grandes centros urbanos do planeta. Uma análise publicada em abril deste ano indica o mercado global de “carsharing” foi de US$ 2,5 bilhões em 2019 e deverá alcançar US$ 9 bilhões até 2026.

Os principais entraves a serem superados incluem maior oferta de veículos à disposição nas cidades e condições mais acessíveis para o usuário – a maior parte das empresas ainda solicita que o motorista devolva o carro no mesmo local onde o alugou.

Por conta da pandemia, serviços de “carsharing” ao redor do mundo viram o seu faturamento crescer. Na Austrália, que voltou a observar um aumento de casos de covid-19, os números de usuários de transporte público caíram, enquanto aumentou o uso de aplicativos de aluguel de veículos. A Turbi afirma que seu faturamento cresceu dez vezes no período e está tomando as precauções sanitárias para higienizar os veículos antes de colocá-los à disposição de um novo cliente.

Após a crise, a expectativa é de que o uso dos aplicativos continue em alta. E se o desenvolvimento de carros autônomos ainda é uma realidade um pouco mais distante, algumas empresas já investem em veículos mais amigáveis ao meio ambiente, outra forte tendência apontada por analistas.

Desde o segundo semestre do ano passado a Beepbeep opera nas cidades de São Paulo e São José dos Campos com uma frota de Renault Zoe, 100% elétrico. Ainda com poucas estações de aluguel à disposição (em São Paulo, estão concentrados em shoppings, hotéis e algumas unidades da rede de mercados St. Marche), o custo inicial para dirigir o veículo custa R$ 7,90, sendo cobrado R$ 0,60 por minuto.

Mas enquanto aguardam os usuários finais, os serviços de compartilhamento de veículos apostam nas parcerias com as empresas, a exemplo da pioneira Zascar. Além de plataformas como a JoyCar, que possibilita abrir o carro com o crachá da empresa ou o celular e consegue gerir as informações de uso dos carros corporativos, a Turbi também já desenvolveu um sistema para oferecer veículos a parcerias.

“As empresas são muito mais pragmáticas e não faz sentido ter uma frota própria de veículos que ficará em um pátio. Ao entender o carro como um serviço, as empresas podem economizar até 70% no período de um ano com esses custos”, afirma Diego Lira. Uma conta final para deixar feliz até o mais austero executivo.

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Redação UNIBUS RN

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