Rodrigo Pikussa, diretor da Marcopolo: “A troca de ar nos ônibus é suficiente para reduzir contágio”

Rodrigo Pikussa, diretor da Marcopolo: “A troca de ar nos ônibus é suficiente para reduzir contágio”

Do Mobilize Brasil
Fotos: Gelson Mello da Costa

Rodrigo Otávio Pikussa é diretor do Negócio Ônibus Brasil da Marcopolo. Nesta entrevista, realizada por telefone, no início de setembro, o executivo reafirma a segurança biológica dos ônibus e apresenta um pacote de itens que podem resgatar a confiança dos usuários no transporte coletivo.

Por fim, avalia que a crise pode ser uma boa oportunidade para a melhoria da qualidade dos serviços de ônibus nas cidades brasileiras.

Rodrigo Pikussa, da Marcopolo. Foto: Divulgação/Julio Soares

Que ações a Marcopolo está adotando para reduzir os riscos de contaminação nos ônibus?

Para nós a pandemia começou antes, porque a Marcopolo tem uma operação na China, o que nos obrigou a agir antes mesmo que a a crise chegasse ao Brasil. Nós criamos uma grupo de trabalho para desenvolver estratégias pós-crise para pensar e analisar quais eram os impactos, asforças que atuariam nesse processo e os possíveis cenários gerados pela Covid-19. Esse grupo nasceu com o objetivo de desenvolver ações para mitigar os problemas gerados pelo coronavírus e manter o transporte em ônibus de forma adequada. A pandemia impactou fortemente a visão das pessoas sobre a segurança do transporte público, uma visão muito mais baseada em suposições do que em fatos objetivos…

Mas os riscos não são reais? Antes mesmo da chegada da pandemia, alguns estudos realizados por pesquisadores de universidades brasileiras, com base em amostras colhidas em ônibus já apontavam que as superfícies desses veículos do transporte coletivo apresentavam vários microorganismos com potencial de contaminação das pessoas…

De fato, existem riscos de contaminação em ônibus, mas eles não são diferentes das ameaças presentes em vários outros ambientes públicos, que as pessoas consideram seguros. O principal ponto, desde o início da pandemia, é que as pessoas encaram o ônibus como uma caixa fechada, com ar viciado, onde o risco de contaminação seria altíssimo. Um dos primeiros estudos que fizemos, em abril, foi justamente para entender a dinâmica de renovação de ar dentro de um veículo. Concluímos que a taxa de renovação de ar em um ônibus urbano ou rodoviário é muito mais alta do que, por exemplo, em supermercados, academias ou teatros. E mesmo que as janelas estejam fechadas, ou que o veículos tenha vidros colados, que são muito comuns hoje.

A norma brasileira NBR 15570 exige que os ônibus tenham uma taxa de renovação de ar de pelo menos vinte vezes o volume interno útil do veículo por hora. Isso se dá por meio do sistema de ar-condicionado ou pelos ventiladores e insufladores instalados em qualquer ônibus.

É a mesma troca de ar realizada em um avião comercial, ou seja, uma troca completa a cada três minutos. É óbvio que as pessoas devem usar máscaras e devem procurar manter um distanciamento mínimo. Também é claro que todos os ônibus precisam estar devidamente higienizados.

Mas o fato é que se você pegar o índice de profissionais – motoristas e cobradores infectados pelo vírus e comparar com a taxa de contaminação média da população, você terá resultados muito parecidos. Ou seja, esses trabalhadores passam oito horas por dia dentro de um ônibus e não têm uma contaminação maior…

Mas isso, mesmo nos ônibus que não têm aquelas barreiras transparentes para “isolar” os trabalhadores?

Sim. A contaminação permanece a mesma. Isso porque a troca de ar dos coletivos, por norma, é suficiente para reduzir esse contágio. Mesmo que haja uma pessoa infectada no interior desse veículo, a concentração de vírus no ar cai a níveis muito baixos. Isso não quer dizer que o contágio seja impossível, mas o risco é o mesmo que o do interior de um supermercado ou shopping.

Podemos falar sobre as inovações implantadas pela Marcopolo nos ônibus?

O sistema BioSafe foi desenvolvido imaginando que a viagem começa antes mesmo do embarque do passageiro. Conversamos com profissionais da área técnica, contamos com a assessoria de pesquisadores da área médica e do Laboratório de Microbiologia aqui da Universidade de Caxias do Sul, tudo para desenvolver uma série de itens pensando na jornada do passageiro. Primeiro nós adotamos um sistema de desinfecção do veículo, uma tecnologia chamada “Fog in Place” que faz a aplicação de uma névoa seca com um sanitizante, de forma a atingir todas as superfícies de toque do veículo e deixando uma ação residual por 72 horas. Além disso, desenvolvemos um tótem equipado com uma câmera, que faz a medição da temperatura do passageiro, verifica se ele está usando máscara, permite a colocação de um dispenser de álcool em gel e ainda lê o bilhete de passagem. Esse equipamento é mais indicado para ônibus de viagem, mas pode ser adaptado para instalação em terminais de ônibus urbanos. Dentro dos veículos, para os pegadores, encostos de cabeça, apoios de braços e outros pontos de contato, nós criamos um revestimento plástico desenvolvido com nanotecnologia que tem a capacidade de neutralizar vírus, além de tecidos com tratamento antimicrobiano.

Ainda criamos um sistema de lâmpadas ultravioleta UV-C que pode ser instalado no ar-condicionado para neutralizar qualquer carga viral que passe pelo equipamento, desenvolvemos as barreiras de proteção aos motoristas e cobradores e desenhamos uma sinalização de piso, para que as pessoas mantenham distância entre si. Para os veículos rodoviários, criamos um sistema de desinfecção dos banheiros também com ultravioleta, além de um novo layout com menos poltronas para manter o distanciamento.

Já existem ônibus dotados desses itens de segurança em circulação?

O BioSafe está sendo instalado em novos ônibus urbanos, que começam a chegar agora ao mercado. E alguns desses itens – como as barreiras de proteção e o ultravioleta para o ar-condicionado – podem ser aplicados em ônibus que já estão em circulação. Mas a grande maioria dos ônibus dotados desses itens estão sendo encomendados e entregues para empresas de outros países. No final de agosto, nós havíamos entregue cerca de 550 ônibus dotados de pelo menos um item do pacote BioSafe. E destes, 400 eram para o mercado externo. A procura rem sido maior no mercado de outros países.

A Marcopolo chegou a calcular qual será o impacto da adoção desses itens para os operadores caso eles se tornem obrigatórios?

Veja, não é nossa política, nem nossa visão que qualquer desses itens se torne obrigatório. São opções que podem ser aplicadas em alguns casos e possivelmente não para todos os operadores de ônibus urbanos. A ideia é ajudar na recuperação dos passageiros perdidos. O ônibus é um espaço público por onde circulam milhares de pessoas, algumas delas carregando consigo agentes infecciosos. E nós achamos que no pós-pandemia essa criticidade do passageiro em relação a contaminações será maior e permanecerá.

No futuro, as pessoas não terão medo de andar de ônibus, mas certamente evitarão os ônibus lotados. E este é o grande recado para o poder público e para os operadores…ou seja, nós teremos que pensar, cada vez mais, na qualidade do transporte público. E aspectos de biossegurança terão que entrar nessa equação.

E isso aumentará os custos de operação?

Talvez o investimento no futuro não seja assim tão significativo. O problema é que as empresas operadoras estão vivendo um momento difícil, trabalhando muito abaixo de suas capacidades. Mas pensando a longo prazo, talvez equipamentos como estes do Biosafe possam ser boas alternativas para atingir o nível de qualidade dos serviços que a sociedade necessita.

Por fim, uma curiosidade. A Marcopolo está ensaiando seu ingresso em outros segmentos além do ônibus, como o transporte sobre trilhos, por exemplo. Você pode explicar rapidamente o que significa essa diversificação?

A Marcopolo quer ser uma provedora de soluções de mobilidade sustentável. Estamos fazendo algumas incursões na área de light rail, estamos desenvolvendo um Veículo Leve sobre Pneus aqui para o Brasil, estamos participando da licitação do Aeromóvel que vai interligar os terminais do Aeroporto de Cumbica, e também trabalhamos com a perspectiva de desenvolver aplicativos para criar sistemas de mobilidade de forma integrada. Não podemos pensar em mobilidade somente com ônibus.

Você acredita que algum dia nós teremos aqui no Brasil um sistema de transporte público tão integrado e atrativo que possamos ter um diretor da Marcopolo ou o dono de uma operadora circulando nos trens, metrôs, ônibus, usando bicicletas. Hoje, aqui no país, o transporte público ainda é visto como uma coisa para gente pobre…Esse cenário pode mudar?

Lembro sempre daquele ditado de que país rico é aquele em que todas as pessoas, de todas as classes sociais, podem usar o transporte público. Transporte público de verdade é isso. No Brasil, nós ainda temos muitos passos a dar, mas a visão da Marcopolo é a de promover esse nível de qualidade em todos os mercados em que a empresa atua.

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Redação UNIBUS RN

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