Mudanças em linhas de ônibus pegam usuários de surpresa e geram protesto em Natal

Mudanças em linhas de ônibus pegam usuários de surpresa e geram protesto em Natal

Do G1 RN
Foto: Ayrton Freire (Inter TV Cabugi / G1 RN)

Cinco linhas de ônibus começaram a operar em novo formato, com trajetos reduzidos, a partir desta segunda-feira (14) em Natal. Ao todo, 11 tiveram mudanças nas suas rotas, segundo a secretaria de mobilidade urbana da capital. Outras três passaram por mudanças há uma semana. As alterações pegaram a maioria dos usuários de surpresa e geraram reclamação. Parte dos passageiros considera que vai acabar tendo menos opção de transporte.

Um protesto foi realizado na manhã desta segunda, em frente à Secretaria de Mobilidade Urbana (STTU). Líderes comunitários de bairros da Zona Norte colocaram uma faixa na entrada da sede da secretaria e foram recebidos pelos servidores públicos para discutir as mudanças.

De acordo com a STTU, as alterações já eram debatidas há mais de um ano e visam diminuir o tempo de espera pelo transporte. Por outro lado, os passageiros terão que se acostumar cada vez mais a usar o serviço de integração.

Segundo a prefeitura, as alterações passaram pelo conselho municipal de transporte no mês de setembro e o município aproveitou a retomada pós-pandemia para implementá-las. Nesta segunda, o sistema voltou a operar com cerca de 70% da frota, que estava reduzida e chegou a operar com metade dos veículos.

Para os usuários, no entanto, as mudanças são vistas com desconfiança. Cinco linhas tiveram percurso encurtado. Teve usuário pego de surpresa. Caso da vendedora Maria do Socorro, moradora da Ribeira, na Zona Leste da cidade. Pela manhã, ela esperava o 64A43, que mudou de nome e itinerário, virando a linha N-43. Após uma hora de espera, ele não tinha passado.

“Estou aqui desde 7h30. Agora são 8h30. Eu ia abrir a loja do meu patrão na (avenida) Pompeia. Estou atrasada e sem saber nem onde vou ter que ir pra encontrar um ônibus que me leve”, afirmou.

Três das cinco linhas alteradas vão retornar da Av. Bernardo Vieira para a Zona Norte. Da avenida, os usuários que quiserem seguir até seus antigos pontos de destino terão que fazer integração com outras linhas. O N-43 não irá mais para Candelária, como fazia o 64A43. Já o N-02 e N-26 deixam de ir até Mirassol e Ponta Negra, respectivamente.

Com menor trajeto, a passagem também diminuiu e passou a ser cobrada tarifa de R$ 3,20. A integração vai custar R$ 0,80 – mas apenas para pagamento no cartão eletrônico – o NatalCard. O benefício pode ser usado no espaço de uma hora.

“Essa mudança vai prejudicar. Era pra terem ouvido as comunidades. O prejuízo vai ser grande. Muita gente sai da Zona Norte para trabalhar na Zona Sul e agora fica sem o 26”, afirmou a aposentada Nilda Oliveira. “Você pega uma região grande, como a Zona Norte, e ao invés de aumentar as linhas, tira elas”, criticou Marcelo Henrique, que é líder comunitário.

Estudo embasou mudanças: De acordo com a Secretaria de Mobilidade Urbana, as modificações foram implementadas após um estudo realizado em 2018 pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que fez um “diagnóstico” das linhas de ônibus da capital e sugeriu alterações para reduzir custos do sistema e o tempo de espera do usuário. Por outro lado, os pesquisadores apontaram que seria necessário um aumento do uso da integração.

“A ideia é criar uma espécie de linha expressa do bairro até um ponto central, como o Midway. Quem quiser ir até essa região, vai esperar menos tempo e pagar mais barato. Quem quiser ir até um destino mais longe também terá esperado menos no terminal e uma oferta de outras linhas para fazer a integração. No caso da linha de Nova Natal/Midway, o passageiro que esperava uma hora, agora vai ter espera de 20 minutos ou meia hora, atendendo o principal anseio da população”, afirmou o técnico da STTU, Newton Filho.

De acordo com ele, as alterações atingem apenas cerca de 10% das linhas municipais e as que foram modificadas há alguns dias registram aumento no número de passageiros.

De acordo com Nilson Queiroga, do Sindicato das Empresas de Transportes Urbanos (Seturn), Natal tinha linha de ônibus com mais de 54,2 quilômetros de extensão, com viagem que passava das três horas. Caso da antiga 64A43, agora N-43. Ele defende que as mudanças vão atender principalmente o usuário, com menor tempo de espera por um ônibus para sair do bairro, por exemplo.

“Há anos a gente vinha criticando a ineficiência da rede de transporte, rede ultrapassada, com a maioria dos destinos indo para a Ribeira sem ter demanda, o custo da tarifa lá em cima, cara para quem paga e insuficiente para quem produz”, afirmou.

Hubs: Segundo o professor da UFRN, Rubens Ramos, a pesquisa de “origem e destino” foi desenvolvida por 100 alunos, que entrevistaram 27 mil usuários, em 2018. Na época, foram identificados três centros que recebiam praticamente todas as linhas da capital: os shoppings Midway Mall, Via Direta e o bairro do Alecrim. Os pesquisadores também descobriram algumas linhas de ônibus que se sobrepunham (ou seja, tinham o mesmo trajeto) em 90% de suas rotas, além de percorrer longas distâncias, demorando para retornar ao bairro.

“Há um equívoco que são linhas muito longas. Na hora do pico, o ônibus não consegue voltar para aumentar a oferta. Tínhamos linhas com tempo médio de 120 minutos. O ônibus saia às 6h e voltava para a Zona Norte às 8h, não tinha mais demanda, ficava parado. A pesquisa mostrou que menos de 20% dos usuários, em geral, percorre a linha toda. Em várias rotas da Zona Norte a Mirassol, por exemplo, mais da metade dos usuários ficava no Midway, então havia um excesso de oferta em mais da metade”, apontou.

“A linha 26, que fazia Zona Norte Ponta Negra, foi identificado que só cerca de 10% (dos usuários) iam até Ponta Negra. Então havia um excesso de distâncias percorrida, o que produz problemas: o ônibus não volta a tempo de pegar mais passageiros no horário de pico, estava se rodando em excesso e aumentando consumo de diesel. Tudo isso produziu custos mais altos e menor oferta de ônibus”, acrescentou.

Para o professor, a ideia é que o sistema funcione como os hubs da aviação. O passageiro se desloca até um desses centros urbanos em que as linhas se concentram e de lá pega outro ônibus, através da integração. Ele reconheceu que há um incômodo para o passageiro ter que sair do ônibus e pegar outro, mas considerou que ele seria recompensado por uma menor espera nas paradas. Além disso, Ramos defendeu que o município melhores as estruturas de coberturas principalmente nesses pontos, para que os usuários fiquem protegidos do sol e da chuva.

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Redação UNIBUS RN

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