Greve dos rodoviários: Primeiro dia de retomada do movimento, juntamente com paralisação de permissionários, trazem caos ao natalense

Greve dos rodoviários: Primeiro dia de retomada do movimento, juntamente com paralisação de permissionários, trazem caos ao natalense

Por UNIBUS RN
Fotos: Divulgação (SINTRO / RN), José Aldenir (Agora RN) e Andreivny Ferreira (UNIBUS RN)

A sexta-feira foi difícil para o natalense que precisou do transporte público. Foi retomada hoje a paralisação dos motoristas e cobradores de ônibus, afetando as linhas de ônibus que circulam na capital potiguar. Organizada pelo SINTRO / RN, sindicato que representa a categoria, a greve afetou o deslocamento de centenas de milhares de pessoas pela cidade, tendo que se aglomerar nos poucos ônibus que estavam circulando. Soma-se a esse movimento um protesto dos permissionários do transporte alternativo, que se estendeu ao longo do dia, o que ocasionou um verdadeiro caos no trânsito de Natal durante toda a sexta-feira.

O movimento, anunciado na semana passada e retomado à 0h de hoje, tem como pauta de reivindicações a manutenção da data-base da categoria, vencida em 1º de maio, a disponibilização dos benefícios da convenção coletiva da categoria, como o pagamento de vale-alimentação e o plano de saúde, o pagamento correto de verbas rescisórias para rodoviários demitidos e o cumprimento de medidas judiciais que anularam demissões recentes.

Na sua cobertura da paralisação, o UNIBUS RN faz nesta matéria um balanço do que ocorreu no primeiro dia da retomada da greve dos rodoviários.

Circulação ao longo do dia: Como esperado, o trânsito da cidade deu um verdadeiro nó com menos ônibus nas ruas. Quem pôde, recorreu ao seu veículo particular ou aos veículos do transporte intermunicipal, opcionais ou aos aplicativos para conseguir chegar ao trabalho.

Os alternativos foram uma opção ao longo da manhã, mas não puderam ser utilizados ao longo do dia, devido à paralisação dos serviços feita pelos permissionários – confira mais adiante o relato completo da manifestação.

Ao final do dia, o UNIBUS RN solicitou aos envolvidos um balanço da circulação dos ônibus na cidade. O SINTRO / RN, entidade que organiza a greve, indicou ter colocado em circulação 40% da frota de ônibus, sendo que uma das empresas, a Cidade do Natal, teve liberada a circulação de 50% de seus ônibus por disponibilizar cobradores na operação. Apesar disso, não indicou um número absoluto de veículos, se limitando a indicar que o total não chegou a 200 ônibus.

O percentual de 40% mencionado pelos trabalhadores foi confirmado pelo SETURN, entidade que representa as empresas de ônibus, que contabilizou, em números absolutos, 228 veículos em circulação.

Procuramos também a STTU, Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana, para que divulgassem seu levantamento oficial. Entretanto, a assessoria de imprensa do órgão informou ao UNIBUS RN que o setor do órgão que fiscaliza a circulação dos ônibus tinha encerrado suas atividades às 14h e que, por isso, não tinha como disponibilizar seu levantamento – vale lembrar que o UNIBUS RN solicitou o levantamento para todas as entidades ouvidas para envio até às 17h.

No decorrer do dia, a STTU anunciou a liberação excepcional de opcionais, táxis, escolares e veículos de turismo cadastrados no DER / RN para circularem nos itinerários das linhas de ônibus enquanto a greve perdurar.

Paralisação dos permissionários: Ao longo do dia, era esperada a utilização do transporte opcional como válvula de escape para a quantidade menor de ônibus nas ruas. Entretanto, também foram registradas paralisações dos permissionários pela cidade.

O primeiro movimento aconteceu durante a manhã, próximo ao Viaduto do Baldo, na Cidade Alta. Os permissionários levaram os veículos do transporte alternativo para a região do entorno do viaduto e pararam os veículos nas vias próximas, interrompendo o trânsito por algumas horas.

Foto: José Aldenir (Agora RN)

No final da tarde, um segundo bloqueio foi registrado, ocorrendo no cruzamento das avenidas Bernardo Vieira e Salgado Filho, em Lagoa Nova. O cruzamento, onde fica localizado o maior shopping center de Natal, foi interditado pelos permissionários, com os veículos interrompendo completamente o cruzamento.

De acordo com apuração do jornal Tribuna do Norte, os permissionários reivindicam a mudança na dinâmica de repasses do valor apurado na cobrança de passagens via bilhetagem eletrônica, que é operada pelo NatalCard, empresa controlada pelo SETURN. O periódico também indica que haveria uma dívida de R$ 2 milhões não paga pela entidade empresarial aos permissionários.

O UNIBUS RN procurou o SETURN para que comentasse a reivindicação da cooperativa que representa os permissionários e que organizou os protestos de hoje. Através de nota oficial, a entidade diz repudiar o que chamou de “ato de terrorismo” e criticou a ação por trazer mais prejuízos para a população durante a greve dos rodoviários. “As questões quanto a forma de distribuição das vendas do vale transporte é objeto de aprovação regular de assembleia sindical, de onde teve assento a própria TRANSCOOP que não se opôs a metodologia de rateio. Além disso, o tema encontra-se sub judice por duas ações judiciais movidas pela TRANSCOOP sem que exista ordem vigente de modificação da forma de distribuição das receitas”, diz a nota enviada pelo SETURN – no próximo tópico, a nota será reproduzida na íntegra.

Também procuramos o SINTRO para que se manifestasse sobre o protesto dos permissionários, uma vez que um dos bloqueios ocorreu nas imediações da sede da entidade que representa os rodoviários. “A reivindicação deles é louvável, o que mais uma vez mostra que o SETURN não tem complacência, nem atenção com as classes. E a prova maior é essa forma de adquirir-se de um direito legal dos permissionários. Não temos o apoio formal nem presencial [para a paralisação dos permissionários]. Mas, com certeza, é válida a reivindicação dos alternativos, e eles estão de parabéns pelo ato deles”, comentou Harley Davidson, Segundo Secretário Geral do SINTRO / RN.

Negociações estagnadas: Ao final deste primeiro dia de paralisação, não há avanço nas negociações, o que faz com que a greve continue e não haja qualquer possibilidade de finalização próxima do movimento. Há uma ação judicial que pede a instauração do dissídio coletivo da categoria, que não possui prazo para julgamento. A ação está tramitando no Tribunal Regional do Trabalho da 21ª Região.

O UNIBUS RN procurou representantes das empresas e dos rodoviários para que comentassem sobre o decorrer da greve.

Pelo lado dos empresários, uma nota oficial foi enviada para indicar seu posicionamento sobre a greve. No texto, o SETURN criticou a ação dos rodoviários, classificando a greve como “intransigente”, além de indicar que o movimento teria “cunho político”. A nota ainda lamenta que a greve tenha causado aglomerações pela cidade, citando o risco de aumento no número de casos do COVID-19.

Confira abaixo, na íntegra, a nota enviada pelo SETURN ao UNIBUS RN:

“Com a greve deflagrada na manhã de hoje a direção do SINTRO pune a sociedade ao forçar a inobservância de protocolos sanitários, quando as notícias mais recentes dão conta de uma elevação do número de casos de coronavírus.

Em duas rodadas de negociação mediados pela Vice-Presidente do TRT/RN quarta e quinta-feira, foi assegurado o pagamento do benefício do plano de saúde e solicitada a suspensão da greve até o dia 29 para negociar o valor do vale-alimentação e outros benefícios.

A intransigência do SINTRO em não aceitar a continuidade das negociações revela o cunho político da manifestação, pois qualquer ajuste que fosse realizado somente seria objeto da folha de pagamento de outubro, em 09 de novembro.

De acordo com o Ministério da Ministério da Economia o setor de transportes urbanos é o quinto mais afetado economicamente pela pandemia, perdendo apenas para atividades artísticas, criativas e de espetáculos; transporte aéreo; transporte ferroviário e metroferroviário de passageiros; e transporte interestadual e intermunicipal de passageiros. E isto tem dificultado a concessão de benefícios pelo SETURN que não se furta a negociar para encontrar em mesa de negociação, com mútuas concessões, a solução para o problema.

Por fim, repudia o ato de terrorismo praticado pela TRANSCOOP NATAL que bloqueia vias públicas com o objetivo de prejudicar ainda mais a população natalense nesse dia de greve. As questões quanto a forma de distribuição das vendas do vale transporte é objeto de aprovação regular de assembleia sindical, de onde teve assento a própria TRANSCOOP que não se opôs a metodologia de rateio. Além disso, o tema encontra-se sub judice por duas ações judiciais movidas pela TRANSCOOP sem que exista ordem vigente de modificação da forma de distribuição das receitas.

As declarações públicas da Presidente da TRANSCOOP NATAL divulgadas nas redes sociais também denunciam o caráter político eleitoreiro da manifestação.

Estamos certos que as autoridades constituídas saberão como agir para combater essas irregularidades”.

Já por parte dos rodoviários, a nota foi criticada. Para o segundo secretário geral do SINTRO / RN, Harley Davidson, em entrevista ao UNIBUS RN, quem teria tido atitudes intransigentes foram os empresários, que não estariam dispostos a negociar. “Eles dizem que estamos sendo intransigentes, mas eles é que estão sendo, pois há mais de cinco meses tentamos negociar e eles ‘empurram com a barriga’. Tentamos negociar por duas vezes com a desembargadora, e mesmo assim eles tentaram ‘empurrar com a barriga’ novamente para o final deste mês. A própria desembargadora disse que quer uma solução prática, imediata, já que faz tanto tempo, e mesmo assim eles não tiveram essa resposta imediata, sendo totalmente irresponsáveis com a população de modo geral e com os próprios trabalhadores”, disse.

Também foi rebatida, pelo representante dos sindicalistas, o trecho da nota em que o SETURN diz que a greve possui “cunho político”. “Não é greve política. É greve social, pelo fato de os trabalhadores estarem há cinco meses sendo lesados pela usurpação de um direito deles que o próprio SETURN retirou – que é a prática deles: querer retirar direito dos trabalhadores, dos permissionários, da população… A partir do momento que eles afirmam que a greve traz o caos social do ônibus lotado, [esquecem de dizer que] antes da greve os ônibus já estavam lotados. Então, eu também deixo meu repúdio aos diretores do SETURN e a nota que eles lançaram, pela falta de caráter e personalidade com relação a essa nota de repúdio”, completa Harley.

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Redação UNIBUS RN

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