Artigo: O que traria os passageiros de volta?

Da ANTP
Foto: Matheus Felipe/Ilustração

Nas próprias palavras do Moovit, aplicativo muito utilizado para orientar o público ao se mover nas cidades, O Moovit analisou milhões de viagens realizadas em 2020 por seus usuários, o que revela um panorama sobre tendências globais de transporte. Combinado a uma pesquisa de opinião, apresenta um retrato fiel de como as pessoas circulam por suas cidades. Essas preciosas informações foram publicadas sob o título de Relatório Global Moovit sobre Transporte Público 2020.

Resolvi me debruçar sobre a parte em que a pesquisa de opinião indaga “O que faria você usar o transporte público com frequência?” Afinal de contas é um assunto sobre o qual todos se consideram especialistas, em especial aqueles que nunca, ou quase, o utiliza. Em especial isso é verdade quando loas são entoadas depois de viagens ao exterior e quando críticas aceitas como verdades absolutas são desferidas sobre nosso desprestigiado, mas sempre presente transporte público brasileiro.

Os dados publicados pela Moovit são especialmente interessantes pois cobrem os anos de 2020 com os efeitos da pandemia em plena ação e o ano 2019 em que não houve qualquer influência desse desastre.

Como a pesquisa permite escolher um número qualquer de fatores que fariam os usuários aumentarem o uso do serviço e os resultados são expressos em porcentagem de escolhas de cada fator, tomei a liberdade de considerar que se um fator é mais escolhido é porque é mais importante para que a reputação seja melhorada. Também presumi que o inverso do fator seria o defeito que mais preocupa o mesmo passageiro. Assim, parece óbvio, que se uma grande porcentagem escolheu “Passagens mais baratas”, é porque um grande número acha as passagens caras. No entanto, nem sempre isso é tão óbvio, pois, se a escolha for pouca para “Veículos mais limpos” isso pode tanto querer dizer que eles estão limpos quanto pode também indicar que veículos sujos não importam tanto! Optamos nessa primeira análise pela interpretação mais direta para simplificar.

A primeira informação procurada foi tentar saber se existem algumas exigências que são comuns a todas essas cidades tão diferentes. Foram incluídas Fortaleza, Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Campinas, Curitiba, Porto Alegre, Belo Horizonte e Brasília.

Constatamos que sim, existem exatamente 6 características que são as preferidas em todas essas cidades. As primeiras 3 são Preço, Pontualidade (chamada de “horários confiáveis”) e Espera (chamada de “menor tempo de espera”) seguidos pelos Cheios (“veículos menos cheios”), Rapidez (“viagens mais rápidas” interessantemente ligadas a menos trânsito) e Segurança.

A segunda informação foi saber se existiu uma diferença sensível entre os dois anos sem dúvida muito diferentes, 2019 e 2020.

Não foram encontradas diferenças marcantes, apenas mudanças de posição, com o importantíssimo Preço em 2020 caindo para 3º lugar.

As cidades que menos mudaram suas principais demandas foram o Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Brasília e as que mais mudaram com a pandemia foram Recife e Porto Alegre.

Portanto, Preço, Pontualidade e Espera estão sempre no primeiro grupo, enquanto Cheio, Rápido e Segurança vêm a seguir e em geral nessa ordem.

Quando o Preço é superado em 2020, mas por pequena margem pela Espera nos pontos e pela Pontualidade isso parece ocorrer pelas condições especiais da época e pela sensibilidade aumentada aos fatores que aumentem o tempo de permanência no ponto.

Outro comentário interessante é sobre a preferência por linhas diretas que embora não estando no primeiro grupo vem logo após. Essa característica muito difícil de ser assegurada em cidades maiores e criticada pelos planejadores como ineficiente aproxima o transporte público das características desejadas nos automóveis e de serviços por demanda. A sociedade sempre cobra eficiência das soluções coletivas e direito de ir e vir para as individuais. A preferência aumentou em 2020 também em função do desejo de não ficar esperando em pontos de baldeação e de não ter a viagem alongada.

O Conforto não está bem especificado, mas é destacado o WiFi e o Ar-condicionado e, ao contrário das linhas diretas, caiu de preferência em 2020, provavelmente pelos riscos percebidos para a contaminação.

A demanda por Compra de passagens e validação no celular pesquisada não despertou maiores interesses e pouco se alterou entre os dois anos. Talvez ainda seja pouco compreendida e esteja muito próxima das medidas já tomadas de modernização na bilhetagem. Há maior dificuldade quando se pesquisam situações não ainda existentes, inovações. Numa pesquisa no Titanic algumas horas antes do acidente a pergunta sobre icebergs não levantaria maiores interesses.

Certamente uma pergunta que precisaria ser mais bem compreendida tanto no que o pesquisado incluiu em sua resposta como como pensa sobre o assunto, foi a da importância da Conexão com as estações que menciona bicicletas e shuttles. Em primeiro lugar, de que estações se está falando e depois quais os meios que estão incluídos nas intenções da pesquisa e na opinião dos usuários, e, finalmente, o que são “shuttles” na realidade brasileira?

De qualquer forma, o mais interessante foi o crescimento significativo de demanda entre 2019 e 2020, embora ainda não seja uma aspiração importante para a maioria.

Precisamos voltar a um dos exemplos iniciais que é o dos Veículos mais limpos. Essa é uma das críticas ao transporte público preferidas nas reportagens e artigos, geralmente escritos por quem não usa o serviço, e que aparece no grupo de importância secundária, mas de forma alguma desprezível. Isso é porque os veículos estiveram mais limpos ou é o limiar de tolerância que está baixo, o que não parece razoável?

Outra demanda desse grupo secundário é o de Pontos mais próximos para reduzir caminhadas, o que entra em choque com a importante demanda por Viagens mais rápidas e maior Pontualidade (que inevitavelmente cai com maior número de pontos). Ao mesmo tempo, talvez, isso possa ser parcialmente mitigado por melhores Conexões com as estações.

O importante item de Segurança, outro assunto da preferência de quem procura explicar por que não usa o transporte público, ao contrário do que muitos possam imaginar pelo noticiário se concentra nas cidades do nordeste e não no Rio de Janeiro e São Paulo, até mesmo Brasília está mais preocupada com isso.

Finalmente, duas das cidades se destacam muito das demais em sua dimensão, Rio de Janeiro e São Paulo. Ao analisar o comportamento do item Velocidade e Linhas diretas, o Rio dá mais importância a ambos do que São Paulo. Ao verificarmos as viagens em ambas as cidades se vê que, apesar de São Paulo ser maior que o Rio, a extensão média (e o tempo gasto) de suas viagens chega a quase o dobro das de São Paulo, o que torna bem compreensível a diferença. Mais um exemplo da utilidade e importância de bons dados para compreendermos os comportamentos e podermos planejar melhor.Moovit – Índice do Moovit sobre o Transporte Público (moovitapp.com)

Por Claudio de Senna Frederico – consultor e membro do conselho diretor da ANTP, além de Vice-presidente

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