Taxistas em Natal vivem crise na pandemia

Da Tribuna do Norte
Foto: Magnus Nascimento (Tribuna do Norte)

Desde o início da pandemia do novo coronavírus no Rio Grande Norte, em março do ano passado, o quantitativo de passageiros que utilizam os serviços de táxis em Natal reduziu cerca de 80%. O número de corridas sentiu um impacto ainda maior: os índices de redução ficam em torno de 90%. As estimativas são do Sindicato dos Condutores Autônomos de Veículos Rodoviários do RN.

Segundo o presidente do Sindicato, Aldemir Calixto, a estimativa é feita com base nas informações colhidas junto às centrais de táxi do Estado. Os números absolutos, no entanto, são de exclusividade das próprias centrais, conforme informou Calixto. Ainda segundo ele, Natal possui 1.010 concessões de táxi, entretanto, cerca de 60% dos carros estão parados, por falta de condições de trabalho. Esse índice, destaca o presidente do Sindicato, se deve aos impactos sofridos com a chegada dos serviços de transporte por aplicativos à capital e agravados pela pandemia de covid-19.

“A situação, que já estava bastante complicada com a chegada dos aplicativos, piorou desde o começo da pandemia no ano passado. A crise sanitária foi o fim da picada, como se diz por aí. Antes, a gente visualizava alguma saída, mas hoje todo mundo olha de um lado a outro e não consegue enxergar nenhuma luz no fim do túnel”, desabafa. Calixto reclama da falta de apoio das autoridades ao setor e critica os decretos que impõem restrições aos trabalhadores, em função da pandemia.

A crítica do presidente do Sindicato vem na esteira dos relatos colhidos pela Tribuna do Norte junto a três taxistas que atuam em Natal há, pelo menos, mais de uma década. Segundo os relatos, a ausência de clientes nas ruas em razão da pandemia aprofundou a crise para o setor. Aldemir Calixto acrescenta a esse cenário o que ele chama de ausência de respaldo por parte das autoridades para garantir soluções à categoria. “Hoje não dá mais para confiar em ordenamento jurídico, porque as coisas mudam repentinamente. Onde já se viu você ser proibido de trabalhar? Nós estamos numa situação onde não dá mais confiar nas nossas autoridades. A situação da nossa categoria é de sofrimento. Nós estamos quase sendo eliminados do Brasil e não temos nenhum respaldo dos nossos governantes”, denuncia.

Além dos impactos da pandemia, Calixto destaca os recentes aumentos nos preços dos combustíveis que acontecem no País desde janeiro como um fator agravante para a crise. “É verdade que a maioria dos nossos taxistas usa gás natural. E tem muita gente que acha que, por isso, nós estamos numa situação confortável. Mas veja: para converter o carro da gasolina para o gás, é preciso gastar, no mínimo, R$ 5 mil. Sem contar nas vistorias que o motorista tem que pagar anualmente. O valor dessas vistorias é muito alto. Se você compara o custo-benefício entre o carro a gás e o carro a gasolina, quase não há diferença. Sem falar que o carro a gás trabalha com mais dificuldade”, explica.

Leonardo Trindade, de 41 anos, é um dos taxistas da capital que utilizam a gasolina como combustível. De acordo com ele, com a redução no número de viagens em função da pandemia, os gastos com combustível diminuíram, mas ainda assim, pesam no bolso.

“Meu carro é a gasolina e esses aumentos têm me prejudicado bastante. Tenho feito menos viagens por causa da pandemia e com isso, meus gastos mensais com combustível também reduziram e ficam em torno de R$ 1,5 mil por mês”, conta, sem mencionar o quanto isso impacta em seu rendimento enquanto taxista. Leonardo explica que não repassa o aumento nas bombas para os clientes, já que a bandeira tarifária é definida pelo Sindicato.

Aldemir Calixto, presidente do Sindicato dos Condutores Autônomos de Veículos Rodoviários do Rio Grande do Norte afirma que a bandeira tarifária dos táxis em Natal está sem reajustes há dez anos. A categoria avalia que não vale a pena aumentar os preços, porque isso provocaria uma dificuldade bem maior em termos de concorrência com os serviços de transporte por aplicativo.

“O taxista é o mais penalizado, porque mesmo com os aumentos da gasolina, estamos há dez anos sem reajuste na tarifa. A situação de todos é muito preocupante. São pais de família que estão de mãos atadas, à mercê de algo que eles não sabem o que vai acontecer. Esperamos que essa crise passe e que as coisas voltem ao normal. Mas de uma coisa todos nós temos certeza: será algo muito lento. Não sabemos se vamos conseguir superar todas as dificuldades”, avalia Aldemir Calixto.

Taxistas sofrem com a queda da renda mensal: Carlos Matias trabalha como taxista em Natal há 40 anos. Foi assim que ele criou as duas filhas, que hoje já estão adultas. Durante todo esse tempo, Carlos conta que já atravessou momentos bons e também períodos difíceis para conseguir se manter na praça. Atualmente, aos 58 anos, ele relata as perdas trazidas pela crise sanitária que se espalhou pelo mundo.

“Como eu sou o proprietário do carro, eu tiro de R$ 300 a R$ 400 por semana. Antes da pandemia, dava para tirar entre R$ 800 e R$ 1 mil por semana. No mês, dava para tirar de R$ 2,5 mil a R$ 3 mil, mas hoje, o máximo que eu consigo é R$ 1,2 mil. O baque que a gente sentiu com a pandemia foi muito grande. Estamos levando aos trancos e barrancos e até agora não apareceu nenhuma autoridade para nos dar apoio”, desabafa.

Carlos bate ponto no Mercado Público da 6, no bairro do Alecrim em Natal, de domingo a domingo para tentar compensar as perdas. Antes, ele costumava ir à praça de segunda a sábado. Por enquanto, o taxista afirma que não vê boas perspectivas para o futuro. “O momento atual é uma incógnita, mas eu não espero muita coisa, não. Só Deus é quem pode nos ajudar nessa situação difícil que estamos vivendo. Eu sei que quando a pandemia passar, as corridas melhoram, mas vai demorar. A nossa economia está despedaçada e, até as coisas normalizarem, a gente vai ter que esperar uns dois anos após o fim da pandemia”, pontua.

O taxista revela que a fidelização da clientela mais antiga é quem o ajuda a seguir em meios às dificuldades. “Como eu estou na praça há um bom tempo, já tenho uma clientela fixa. Antes da pandemia eu fazia de 10 a 15 corridas por dia. Hoje, tem dia que a gente faz três, às vezes não faz nenhuma. Mas não dependendo mais do cliente da rua. Graças a Deus consegui fidelizar passageiros no passado”, conta.

“90% dos meus clientes de rua desapareceram”: Talvane Matias, de 47 anos, também mantém uma longa história na praça. Ele diz que começou quando ainda era menor de idade, aos 16 anos. Para tentar sobreviver à crise Talvanes conta com a fidelidade dos clientes que conquistou ao longo desse tempo e revela que, por causa disso, se sente em uma situação confortável em relação aos colegas. “Com essa questão da fidelização, hoje eu ando com netos de clientes que eu conquistei há 30 anos. No meu caso, 90% dos clientes da rua desapareceram, então, minha principal demanda são aqueles a quem eu conquistei lá atrás. Eu olho para a situação dos meus colegas e me sinto numa zona de conforto. Com a pandemia não tem mais os clientes de rua. Tem taxista que passa o dia na praça e não consegue nada”, conta.

Mesmo em uma situação em que diz ser mais confortável, Talvanes confessa que a crise sanitária trouxe impactos significantes para o seu rendimento mensal. “Minha média de apurado atual é de R$ 1 mil por semana. Antes da pandemia era o dobro. Minha tem filha 22 anos e quando ela era criança eu tinha condições de pagar plano de saúde e escola particular. Hoje, não tenho mais” assume o taxista.

Apaixonado pela profissão que sempre exerceu, Talvanes relata que não consegue vislumbrar perspectivas positivas em um futuro próximo. “Minha vida sempre foi o táxi. Mas com a pandemia, não tem clientes. Enquanto as autoridades não fizerem nada por nossa categoria, a gente vai continuar sofrendo”, avalia.

“Quando fecha tudo, fica muito difícil”: Leonardo Trindade, de 41 anos, está na praça há 16. Assim como os colegas ouvidos pela Tribuna do Norte, ele conta que consegue sobreviver em uma situação mais favorável, graças à fidelidade dos clientes. “Alguns [clientes] andam comigo ao longo desses 16 anos. E para outros, costumo fazer alguns serviços, como ir a bancos e supermercados para resolver a demanda de cada um. Mas essa não é a realidade de todo taxista”, afirma.

Léo, como é conhecido pelos colegas, revela que enxerga um ânimo para a situação atual a partir do momento em que as pessoas voltarem a circular nas ruas.

“Eu acho que quando esses decretos acabarem, as coisas melhoram para todo mundo. A situação é complicada. Como a gente depende das pessoas na rua, quando fecha tudo fica muito difícil”, avalia. Sem mencionar números, ele comenta sobre as perdas geradas pela pandemia. “Eu observo uma redução muito grande no apurado do dia. Hoje, eu tenho dificuldade para abastecer, por exemplo, que é algo que antes eu não tinha, ainda mais porque meu carro é a gasolina e, com os últimos aumentos, isso me prejudica bastante”, sublinha, enquanto relembra, saudosista, de um passado bem diferente. Quando eu comecei, há 16 anos, as coisas eram boas. Depois vieram os transportes por aplicativos e agora a pandemia. Tudo piorou muito”, conclui.

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