Eletrificação da frota brasileira patina, sem incentivo ou meta

Do O Estado de SP
Foto: Divulgação

Os projetos públicos são fundamentais para a eletromobilidade. Regulamentação, metas e incentivos para impulsionar a eletrificação são ações do Estado. E o Brasil tem ficado para trás nessa corrida de transformação tecnológica e comportamental em curso no mundo, um dos pilares da era do carbono neutro. Especialistas, entidades e representantes do setor produtivo apontam risco de prejuízo generalizado para a economia se houver atraso nessa transição.

“O mundo está transformando seu parque produtivo em uma velocidade muito grande e, infelizmente, o Brasil está ficando para trás”, afirma o presidente da Associação Brasileira dos Veículos Automotivos (ABVE), Adalberto Maluf.

Em 2010, a frota global de veículos elétricos estava na casa dos 17 mil. Em dez anos, saltou para mais de 10 milhões. Na pandemia da covid-19, o crescimento se manteve e a estimativa da Agência Internacional de Energia (IEA) é de que, em 2030, a frota elétrica ultrapasse 22 milhões. “É uma grande mudança no parque produtivo mundial, com projetos integrados de financiamento, pesquisa, inovação, criação de demanda”, acrescenta Maluf.

ATRASO

O Brasil é o oitavo maior mercado de veículos no mundo e o quarto maior em veículos pesados. A especialista em eletrificação Flávia Consoni, do Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp, explica que políticas públicas são fundamentais na transição. “Porque é uma tecnologia cara, disruptiva e sofre resistência. Mas que tem se mostrado aliada ambiental e das cidades.”

Consoni coordena o Laboratório de Estudos do Veículo Elétrico (Leve), grupo de pesquisa, criado em 2014, na universidade, e cita o caso da Noruega – extremo oposto do Brasil –, em que 80% dos carros vendidos são elétricos. “Custam barato? Não, são catudo, ros. Mas eles têm políticas muito agressivas, que priorizam esse modal e dão créditos ao consumo”, explica Consoni.

Lá, em 2025, o motor a combustão interna de combustível fóssil será banido. “Outros países têm colocado compromissos mais à frente, mas estão se posicionando. Isso é política pública.”

FALTA FORÇA PARA MUDAR

No Brasil, não há metas estabelecidas para a descarbonização nem para a redução das emissões de carbono na atmosfera. “Se olharmos os países vizinhos, seis têm plano ou estratégia nacional de mobilidade elétrica, com metas.” Costa Rica, Chile, Colômbia, Equador, entre outros. Para a professora da Unicamp, as políticas locais ainda “não possuem a força de transformação. É preciso projetos arrojados.”

Otávio Cunha, presidente da Associação Nacional das Empresas de Transporte Urbano (NTU), diz que, no transporte público, a realidade é ainda pior. As entidades cobram políticas de incentivo e, acima de prioridade ao coletivo e à modernização do sistema, que “está à beira de um colapso”. “Propusemos um novo marco legal de mobilidade urbana coletiva multimodal, mas não tivemos resposta.”

No Brasil, as políticas devem considerar o cenário local. “Vamos conviver, ainda, com soluções de baixa emissão, com iniciativas de descarbonizar o nosso sistema”, diz Consoni. “O etanol é uma das tecnologias e já está combinado com a mobilidade elétrica.” No mercado brasileiro, dos cerca de 50 mil veículos eletrificados, mais de 70% são híbridos.

Em 2019, o governo federal publicou um mapeamento sobre ações voltadas para a mobilidade elétrica no País, desde 1997. Das 75 iniciativas listadas, públicas e privadas, 80% são de 2013 a 2018. “Esse salto na disseminação da mobilidade elétrica, no Brasil, indica um alinhamento com a tendência mundial de crescimento do mercado de veículos elétricos”, analisa Flávia Consoni, da Unicamp.

“Não temos estratégia de eletromobilidade”
Adalberto Maluf, presidente da ABVE

Qual é o peso das políticas públicas na descarbonização?

Adalberto Maluf: A pandemia acelerou as ações dos governos pelo mundo em prol da economia de baixo carbono. O Pacote Verde Europeu, programas na Alemanha e França, a política industrial dos Estados Unidos, China… O mundo tem projetos públicos muito consistentes, que estão mudando a indústria. No Brasil, não existe nenhuma estratégia nacional de eletromobilidade nem programas ambientais e de eficiência energética integrados. Infelizmente, falta coordenação federal com a indústria e com a academia.

A transformação tardia é um risco?

Maluf: Ao não criar demanda e mercado para a eletromobilidade, o País pode ficar com fábricas obsoletas e, em pouco tempo, não conseguir mais se inserir nas cadeias produtivas internacionais. O Brasil poderia despontar como o grande centro de fabricação de híbridos flex e, também, de elétricos. Perdemos uma oportunidade de sermos o grande líder da revolução pela eletromobilidade, já que temos uma matriz energética relativamente limpa, em comparação com o resto do mundo.

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