Mossoró: Transporte coletivo dá salto em cobertura, mas custos fazem pressão

Do Blog Carlos Santos
Foto: Kaio Lucas (Gentilmente cedida ao UNIBUS RN)

O transporte coletivo por ônibus em Mossoró resiste à crise econômica, que devastou o sistema na pandemia. Se o serviço já estava combalido no período pré-Covid-19, a demanda de passageiros desabou 90% na cidade durante o isolamento social, imposto pelo coronavírus.

Segundo a Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (ANTU), as empresas operadoras de ônibus urbanos no Brasil calculam ter perdido R$ 25,7 bilhões em receitas por causa da diminuição do número de passageiros, em decorrência da Covid-19, desde fevereiro de 2020

Enquanto empresas de ônibus fechavam Brasil afora, a concessionária em Mossoró, Cidade do Sol, enxugou a operação para evitar a falência total: manteve 3 linhas em funcionamento entre 2020 e 2021, embora deficitárias (Vingt Rosado, Nova Vida e Abolição).

Retomada: Esse cenário se manteve até fins do ano passado, quando o contexto começou a melhorar. Em novembro de 2021, a gestão do prefeito Allyzon Bezerra (Solidariedade) lançou o programa “Ônibus no Bairro”, que subsidia parcialmente o sistema e estabeleceu plano de retomada de linhas. Foi uma virada histórica no serviço em Mossoró, numa expansão e alcance nunca antes vistos.

Hoje, são 12 itinerários em operação. Como consequência, a quantidade de giros nas catracas dos ônibus subiu de 29.910, em janeiro, para 57.652, em março (48,1%). Nas empresas de ônibus urbano, mensura-se total de giros, e não de passageiros, porque em tese o mesmo passageiro usa diversos ônibus no mesmo mês.

Apesar do aumento no total de giros, dados da Cidade do Sol apontam para linhas altamente deficitárias, que, ao longo de um mês inteiro, não alcançam mil giros. Caso da linha Belo Horizonte que, em março, alcançou seu melhor desempenho, com 368 giros/mês. Média de 14 giros ao dia. Também acumulam déficits as linhas do bairro Macarrão (628), Planalto 13 de Maio (634), Bom Jesus (875) e Shopping Partage (919).

Gratuidade: O aumento de giros coincide com o retorno das aulas presenciais e das linhas Abolição V e Universidades, em março. Também há indícios de que a alta acelerada nos combustíveis levou muita gente a optar por essa alternativa.

Chama atenção, entretanto, a alta gratuidade. Dos 57.652 giros em março, 19.020 são gratuidade total (idosos e pessoas com deficiência) e 11.550 meia passagem (estudantes).

Se somadas as duas categorias, são 30.570 giros (53% do total, mais que o dobro da média nacional). Ou seja, dos 57.652 passageiros em março, apenas 47% foram pagantes.

Custo: A retomada do transporte, evidentemente, tem um custo. Para atender as 12 linhas, a quilometragem mensal saltou de 22.370, em janeiro, para 45.412, em março – incremento de 50.7%. O aumento de quilômetros rodados coincidiu com o reajuste de 24% do diesel, em 10 de março.

A mais recente alta do diesel é só mais uma faceta da inflação do transporte coletivo, que não para de subir.

É o que demonstram os custos da Cidade do Sol, nos últimos quatro anos. Com combustível, o litro do diesel saltou de R$ 3,10, em 2018, para R$ 5,59, em 2022 – aumento de 45%. Pneu subiu de R$ 1.350, em 2018, para R$ 2.189 – 38% mais caro. E o custo com salário aumentou 17% (R$ 1.667,55 para R$ 1.998,32) – apurou o Canal BCS (Blog Carlos Santos).

Por outro lado, a tarifa (R$ 3,30) em Mossoró está sem reajuste há quatro anos. Pelos cálculos da empresa, para repor essas perdas, a passagem deveria custar R$ 10,30. Em síntese, apesar da reação da demanda e do apoio da Prefeitura, o transporte coletivo em Mossoró continua deficitário. Arrasta-se.

Alternativas: Há medidas, contudo, para diminuir o prejuízo. Uma delas – e talvez a mais urgente – é a diminuir a defasagem da tarifa, entende a empresa. Consciente do alto custo político para reajuste da passagem, a Cidade do Sol destaca, pelo menos, reposição da inflação, o que deixaria a tarifa em R$ 4,00 ou R$ 4,10.

Outra medida necessária e possível é a redução da alíquota do Imposto Sobre Serviços (ISS) de 5% para 2% para empresa de ônibus. Ou até a isenção total desse tributo, amparada em lei federal.

O subsídio municipal da gratuidade do idoso e da pessoa com deficiência é outra alternativa. Como também os demais 50% da tarifa, hoje pagos pelo estudante.

Urge ainda o aumento da fiscalização contra transporte ilegal. Em Mossoró, é comum assistir a taxis, veículos por aplicativo e veículos de transporte individual (placa cinza) apanhar passageiro em ponto de ônibus.

Quando o ‘coletivo’ chega, encontra a parada quase vazia. Isto é, os carros clandestinos levam o passageiro pagante. Para o ônibus, resta a gratuidade (idosos e pessoas com deficiência). E a maioria das linhas continua a dar prejuízo.

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