Especial UNIBUS RN: As memórias da Viação Campos

Por UNIBUS RN
Fotos: Acervo UNIBUS RN/Matheus Felipe

O dia 14 de abril marcou o fim das atividades de uma das mais antigas empresas de ônibus do Rio Grande do Norte: a Viação Campos. Ao longo de 51 anos, a empresa esteve presente ligando praias do Litoral Sul a Natal.

Fundada em 1971 por Manoel Domingos Campos, a empresa recebeu o sobrenome do fundador, sendo denominada ‘Auto Viação Campos’. A principal linha era Tabatinga/Natal, que também atendia as praias e comunidades de Pirangi do Sul e do Norte, Cotovelo e Pium.

Houve ainda operações para as regiões de Barreta, Alcaçuz, Hortigranjeira e Colônia, todas comunidades do Litoral Sul entre os municípios de Parnamirim e Nísia Floresta. Além da ligação com Natal, a empresa também operou a linha Pirangi/Parnamirim.

Nas décadas de 1980 e 1990, a Campos chegou a contar com ônibus rodoviários na frota, que também eram destinados à atuação no turismo. Mas logo a frota foi padronizada com os modelos urbanos, recebendo diversas carrocerias e chassis.

A marca da Campos sempre foi de uma frota bem conservada. A empresa também renovava com frequência, garantindo ônibus mais novos sempre presentes à disposição dos usuários.

Até o início dos anos 2000, poucas vezes a empresa aderiu à compra de ônibus usados. Em uma das ocasiões, quando comprou o único Maxibus que circulou na região metropolitana de Natal, a aquisição foi feita devido à demora na entrega de um veículo da Busscar, comprado zero quilômetro – a montadora passou por uma grave crise na época.

Também há curiosidades interessantes a serem compartilhadas, como no caso do antigo carro 0435. O ônibus havia sido comprado pela empresa Mandacaruense, de João Pessoa (PB), que desistiu da compra. O veículo foi repassado, ainda zero quilômetro, para a Campos.

Esse veículo tinha o tipo da fonte da empresa diferente – semelhante ao da Mandacaruense – e o padrão de numeração diferente – com quatro dígitos, superior ao critério adotado pela empresa (entre 190 e 210) e no mesmo local da empresa paraibana.

Na prática, o ônibus recebeu pequenos ajustes ao ser transferido para a Campos. Nem mesmo o posto do cobrador – que ficava na parte traseira – foi retirado, permanecendo no veículo até o encerramento de suas atividades.

Em relação aos micros que estiveram em sua frota, há registro de pelo menos dois veículos – um Bello, da Comil, e um Micruss, da Busscar.

Já os veículos de maior porte foram o Urbanus com chassi Scania F-113 e o Svelto três eixos que fizeram parte da empresa.

A Campos também foi pioneira na compra de veículos em pelo menos duas ocasiões: o primeiro Urbanuss Pluss foi da empresa, tendo chegado em 2001. Relatos de motoristas afirmam que o ônibus impressionava, com a população apontando para o veículo, até então inédito no estado.

Também foi a primeira empresa do transporte intermunicipal a comprar um veículo com chassi Euro V. Em 2012, a Campos aderiu ao chassi Volkswagen 17.230 OD, no último ônibus comprado zero quilômetro – o carro 213.

História

A história da Campos faz parte do desenvolvimento do litoral Sul do Rio Grande do Norte. A empresa esteve presente desde a década de 1970, transportando pessoas na ligação entre Natal e as diversas comunidades existentes.

Em sua publicação de despedida no Instagram, a empresa destacou sua história. “Quando olhamos para trás, vemos nosso fundador, Sr. Manoel Domingos Campos, tendo iniciado as atividades lá em 1971. Ao longo de décadas, os ônibus vermelhinhos se destacando em meio ao azul dessas belíssimas praias… Quantas boas lembranças!”, afirmou a publicação.

A empresa também destacou que “a nossa relação, sem dúvida, sempre foi de amizade com todos os usuários.”

Apesar disso, a Campos considerou que foi vencida pela crise. “A última década não foi fácil. Tentamos, lutamos de todas as formas, até o fim. Em 2012, ainda conseguimos comprar nosso último ônibus zero quilômetro, sendo o primeiro da tecnologia EURO V. Sempre nos dedicamos para oferecer o melhor para os usuários”.

Parceria com a Riograndense

Ao longo da última década, inclusive, a empresa buscou fazer investimentos. Instalou a bilhetagem eletrônica da RN CARD em seus veículos e também aderiu a ônibus semi-novos para renovar a frota, retirando veículos mais antigos de circulação.

Mesmo assim, a situação demonstrava ser difícil, e em 2019, a Campos fechou uma parceria com a Riograndense. Na ocasião, a empresa mudou o nome dos veículos para MDC (Manoel Domingos Campos, uma homenagem ao fundador da empresa), e ganhou um novo layout, substituindo o tradicional vermelho – que esteva presente na Campos há décadas, apenas com pequenas alterações, pelo verde, semelhante a pintura da Riograndense.

Com a parceria, a frota foi renovada com a inclusão de diversas unidades de veículos semi-novos. Os demais ônibus que faziam parte da Campos também foram reformados.

Poucos meses após o início da parceria e atividades da MDC, também teve início a pandemia do novo coronavírus, afetando drasticamente a demanda do transporte. A pandemia foi fatal para a empresa, que não conseguiu se manter.

Crise e decisão de encerrar as atividades

“Tentamos! De todas as formas! Mas não foi possível. Isso nos dói muito. Para não prejudicar mais os usuários, com atrasos nos horários ou problema na manutenção dos veículos, optamos por encerrar as atividades”, declarou a empresa também durante a publicação final em seu Instagram.

O fim das atividades foi anunciado com muita tristeza, mas com a demonstração de que a situação estava crítica, especialmente para os usuários. Sem conseguir se sustentar, mesmo com a parceria com a Riograndense, a MDC tinha cada vez menos ônibus – resultando em atrasos constantes, além dos problemas na manutenção dos veículos.

Na sexta-feira, dia 15 de abril, feriado da Semana Santa, apenas dois ônibus estavam circulando na principal linha, Tabatinga/Natal, e a demora nas paradas chegava a cerca de 2 horas e meia.

Anteriormente, com a agravamento da crise, a empresa parecia caminhar para o fim das atividades. A parceria com a Riograndense foi desfeita extra-oficialmente tempos antes, levando a empresa para o caminho do fim de suas atividades. Por fim, o órgão gestor de transporte do estado, o DER-RN (Departamento de Estradas e Rodagens) decretou a caducidade das linhas, levando as operações emergenciais para outra empresa.

Infelizmente, a demonstração é de uma crise que cresceu como uma bola de neve – causada especialmente pelos fatores externos. Sem dúvidas, a empresa tentou. O esforço é real, a tentativa de permanecer em suas atividades e garantir as operações ocorreu de todas as formas.

Mas assim como a Campos afirmou aos usuários que eles estarão em seus corações, a empresa agora permanece em nossas lembranças.

Editorial: Por falar em lembranças…

O Portal UNIBUS RN destaca todo agradecimento e carinho que tem pela Viação Campos, relembrando desde a primeira visita que fizemos à sua garagem, antes mesmo deste Portal que hoje é referência em transportes no Rio Grande do Norte, ter sido criado.

A Viação Campos sempre foi uma enorme apoiadora e amiga de todos que fazem o Portal UNIBUS RN, com grandes contribuições ao nosso site – em atenção, respeito e consideração.

Fizemos a cobertura da chegada de veículos novos e diversas matérias especiais e históricas com ônibus que passaram pela empresa. Nossa equipe sempre foi muito bem tratada e bem recebida em todas as vezes que estivemos na empresa.

Tivemos, inclusive, o pioneirismo local de ter nosso nome na programação do itinerário eletrônico de um ônibus zero quilômetro adquirido pela empresa, reforçando o apoio que sempre tivemos da Campos.

Acompanhamos de perto as dificuldades enfrentadas e o avanço significativo da crise que o setor enfrentou, afetando a Campos, ao longo da última década. E somos testemunhas de sua luta.

À Viação Campos, nosso muito obrigado pela parceria! E parabéns por toda sua história!

1 comentário em “Especial UNIBUS RN: As memórias da Viação Campos”

  1. Esses carros da viação campos andei em todos O carro 190 hj pertence assembleia de Deus de Parnamirim o 213 era o carro das 22:00hs motorista Cabral agente conhecia todos os motoristas pelo nome

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